A dor lombar costuma aparecer como aquele visitante inconveniente que ninguém convidou, mas que insiste em se anunciar. Quando ela chega, o corpo fala por sinais, não por certezas. E interpretar esses sinais é exatamente o que uma boa avaliação lombar faz.
A consulta começa pela anamnese, a conversa detalhada que funciona como o mapa inicial. É nessa etapa que o profissional pergunta onde a dor começa, se ela desce pelas pernas, se piora ao caminhar ou ficar em pé, se alivia ao sentar ou inclinar o tronco. Essas pistas ajudam a identificar sinais de alerta, os chamados red flags, que podem indicar algo mais sério. Situações como perda importante de força, dormência intensa ou dificuldade para urinar exigem atenção imediata, como descrevem Hooten e Cohen na Mayo Clinic Proceedings, e autores como Katz, Zimmerman e Makhni na JAMA.
O exame físico é a segunda lente de aproximação. Aqui entram a postura, a marcha, a força muscular, a sensibilidade e os reflexos das pernas. O profissional também avalia movimentos específicos da coluna para entender onde a dor se manifesta e como o corpo responde. Esse processo segue recomendações amplamente discutidas por Beyer, Eysel e Bredow no Deutsches Ärzteblatt International, além de diretrizes de sociedades fundamentais como a North American Spine Society (NASS).
Um ponto que surpreende muita gente é que nem sempre exames de imagem são necessários. Ressonância magnética e raio X só fazem sentido quando há suspeita clínica consistente de algo mais sério, como uma hérnia de disco realmente compressiva ou uma estenose do canal vertebral. Knezevic, Candido, Vlaeyen, Van Zundert e Cohen, em artigo no The Lancet, reforçam que muitas pessoas apresentam alterações nos exames sem sentir dor alguma. Por isso, a imagem só tem valor quando conversa com a história e o exame físico.
O tratamento inicial costuma ser simples, humano e eficaz. Orientar sobre movimento seguro, usar medicamentos adequados quando indicados e iniciar fisioterapia baseada em evidências. A maior parte dos casos melhora nesse caminho. Quando a dor persiste ou há sinais neurológicos importantes, o paciente pode ser encaminhado para avaliação especializada ou, em raras situações, cirurgia.
Talvez seja útil fazer uma breve pausa agora. Inspirar por três segundos, expirar por cinco. Esse tipo de microajuste ajuda o cérebro a reorganizar a atenção e perceber que dor não é sentença, é informação. A avaliação bem feita transforma essa informação em estratégia.
O principal ganho de entender esse processo é devolver clareza e autonomia ao paciente. Saber exatamente o que está acontecendo diminui o medo e reforça a confiança no tratamento. Quem quiser se aprofundar ainda mais pode ler as fontes originais, todas acessíveis para consulta:
Evaluation and Treatment of Low Back Pain: A Clinically Focused Review for Primary Care Specialists. Hooten WM, Cohen SP. Mayo Clinic Proceedings. 2015;90(12):1699-1718. doi:10.1016/j.mayocp.2015.10.009.
Diagnosis and Management of Lumbar Spinal Stenosis: A Review. Katz JN, Zimmerman ZE, Mass H, Makhni MC. JAMA. 2022;327(17):1688-1699. doi:10.1001/jama.2022.5921.
The Diagnosis and Treatment of Degenerative Changes of the Lumbar Spine. Beyer F, Eysel P, Bredow J. Deutsches Ärzteblatt International. 2025;122(9):249-256. doi:10.3238/arztebl.m2025.0056.
Low Back Pain. Knezevic NN, Candido KD, Vlaeyen JWS, Van Zundert J, Cohen SP. The Lancet. 2021;398(10294):78-92. doi:10.1016/S0140-6736(21)00733-9.
Essas referências ampliam a compreensão e mostram que o cuidado lombar, quando guiado por evidência, devolve lógica ao corpo e confiança ao paciente.