Sua coluna tem 3 milhões de anos de treino
Quando a coluna dói, é comum ouvir que "o ser humano não foi feito para ficar em pé". A frase soa científica. Mas o que os fósseis e os estudos de comparação entre espécies permitem dizer de verdade?
Este texto adapta as partes 3.1 e 3.2 do livro A coluna sob carga. Ele conta como a coluna humana foi moldada pela carga de andar em pé e por que isso não faz dela um "defeito".
Duas palavras para começar
Bipedia é andar sobre duas pernas. É o jeito humano de se locomover.
Hominíneo é o nome do grupo que reúne os humanos e seus parentes extintos mais próximos, como os australopitecos.
A coluna humana é resultado de milhões de anos de seleção sob a carga da bipedia. Seleção, aqui, quer dizer que as formas que funcionavam melhor sob essa carga foram passando adiante, geração após geração.
O ponto de partida: um tronco curto
Uma revisão de dados comparativos sugere que o ancestral dos hominíneos provavelmente tinha o tronco e a região lombar curtos, como os grandes macacos africanos.
O livro classifica esse ponto como plausível: há indícios e faz sentido, mas não está demonstrado. É uma reconstrução a partir de comparações, não uma observação direta.
Australopithecus afarensis: a coluna já mudando
O Australopithecus afarensis é uma espécie de hominíneo extinto.
O registro fóssil dessa espécie já mostra a pelve (a bacia) e a coluna reorganizadas para andar sobre duas pernas. O autor da revisão situa essa evolução nos últimos cerca de 3 milhões de anos. Daí vem o título deste texto.
Um estudo de 2026 acrescentou um detalhe. Ele examinou um único indivíduo (o fóssil catalogado como A.L. 288-1) e encontrou traços primitivos no anel vertebral, uma borda em forma de anel da vértebra. Os autores sugerem que a coluna moderna evoluiu de forma gradual, e não de uma vez.
O livro classifica a reorganização da coluna e da pelve para a bipedia como documentada, isto é, observada diretamente em estudos que concordam entre si.
A curva lombar da mulher
Um dos achados mais bonitos dessa história é sobre o corpo feminino. A curva lombar da mulher tem curvatura e reforço nas vértebras que ajudam a compensar o peso da gestação. Uma diferença parecida entre os sexos aparece em fósseis de Australopithecus, o que indica que essa adaptação é anterior ao gênero Homo.
A forma está documentada. A explicação de que ela surgiu por seleção natural é uma inferência. O texto sobre a curva lombar da mulher conta essa história com mais detalhe.
Mais de um jeito de ficar em pé
Diferentes hominíneos alcançaram uma postura ereta equilibrada com alinhamentos diferentes. No Homo erectus e no Homo sapiens, a coluna tem forma de S. Nos Neandertais, ela era mais reta.
A força desse achado é plausível, porque a reconstrução usou um representante por grupo. Mesmo assim, a mensagem é interessante: não existe uma única forma "certa" de coluna para ficar em pé.
A curva lombar depende de muitas coisas
A lordose é a curva para dentro na parte baixa das costas. Uma revisão mostra que ela depende de vários fatores:
- a inclinação da pelve (o livro usa o termo incidência pélvica);
- a musculatura;
- a forma em cunha das vértebras;
- a saúde do disco.
A mesma revisão mostra que, com a idade, a lordose diminui e a curva da parte alta das costas (a cifose) aumenta. O livro classifica isso como documentado.
Uma exigência da bipedia, não um privilégio humano
Quando andamos, o tórax gira para um lado e a pelve para o outro. Esse movimento é chamado de contrarrotação.
Um estudo que comparou o movimento de pessoas e de macacos japoneses andando sobre duas pernas encontrou essa contrarrotação também nos macacos. Os autores concluem que ela seria uma exigência mecânica de andar sobre duas pernas, e não uma exclusividade dos hominíneos. O achado é documentado, mas a amostra foi pequena.
Pense em subir uma escada com sacola de mercado. O tronco e a pelve trabalham juntos, girando em sentidos opostos para equilibrar o passo. É um movimento antigo, partilhado com outros primatas quando andam em pé.
Uma correção importante: a coluna não é um "fracasso"
O livro corrigiu uma ideia que circulava no material de partida. Atribuía-se a dois pesquisadores, Putz e Müller-Gerbl, a hipótese de que os problemas da coluna viriam da vida longa somada aos hábitos modernos.
O resumo do artigo deles não diz isso. Os autores concluem que a coluna humana é um "compromisso otimizado" da evolução. Para eles, a coluna humana não é exigida de um jeito diferente, em qualidade, da coluna de grandes mamíferos.
O livro também retirou outra afirmação do texto de partida, sobre a orientação da articulação do quadril "há pelo menos 3,6 milhões de anos". Ela não foi confirmada nas fontes encontradas.
Essas correções mostram um cuidado do livro: só fica o que a fonte realmente diz.
A hipótese da forma ancestral
Agora, uma pergunta curiosa: a forma da vértebra muda o jeito como ela aguenta carga?
Um grupo de pesquisa, liderado por Plomp, comparou vértebras humanas com vértebras de chimpanzés e de orangotangos. Eles olharam com atenção as vértebras humanas que tinham nódulos de Schmorl. O nódulo de Schmorl é uma marca no osso da vértebra onde o disco "empurrou" para cima ou para baixo.
O achado: as vértebras humanas com nódulos de Schmorl eram mais parecidas, na forma, com as de chimpanzé do que as vértebras humanas saudáveis. Os autores chamaram isso de hipótese da forma ancestral.
Uma análise em 3D, feita depois, confirmou o achado e o estendeu a hominíneos extintos.
O outro extremo: a hipótese do overshoot
No extremo oposto estão as vértebras com espondilólise. Espondilólise é uma fratura por fadiga no arco da vértebra, a parte de trás do osso. Fratura por fadiga é a que acontece pelo acúmulo de esforços, e não por um golpe único.
Essas vértebras ficam na ponta mais "derivada" da variação humana, ou seja, a mais afastada da forma ancestral. Os autores chamaram isso de hipótese do overshoot, algo como "passar do ponto".
Como ler esses achados com cuidado
O livro faz questão de uma leitura cautelosa. Esses estudos são associações de forma, medidas em coleções de esqueletos. Eles sugerem que a forma da vértebra muda o modo como a carga é tolerada.
Eles não indicam que andar em pé seja um defeito. E não permitem dizer, olhando a coluna de uma pessoa viva, que ela vai ter este ou aquele problema.
O que essa história muda para você
Quando você fica em pé na fila do banco ou sobe a escada com as sacolas, está usando uma estrutura moldada ao longo de milhões de anos para carregar peso em pé.
Isso não quer dizer que a coluna seja indestrutível. A bipedia tem custos mecânicos desde o começo, como mostra o capítulo seguinte do livro. Mas quer dizer que a coluna não é um erro de projeto. Ela foi moldada para receber carga e se adaptar a ela.
Os próximos textos continuam essa história. Um mostra o que muda quando ficamos parados sem usar o músculo. Outro pergunta se a dor nas costas é doença da vida moderna.
O que você leva deste texto
- A coluna humana foi moldada por milhões de anos de carga em pé. A reorganização da pelve e da coluna já aparece no Australopithecus afarensis, nos últimos cerca de 3 milhões de anos.
- Não existe uma única forma de coluna para ficar em pé: hominíneos diferentes chegaram lá com alinhamentos diferentes.
- A forma da vértebra parece mudar como a carga é tolerada. Isso não faz da coluna um defeito.
- A coluna foi moldada para carregar peso.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.
Perguntas frequentes
A coluna humana é um 'defeito' da evolução?
Não. O livro mostra que os achados sugerem que a forma da vértebra muda como a carga é tolerada, mas não indicam que andar em pé seja um defeito.
Desde quando a coluna é adaptada a andar em pé?
O livro cita a reorganização da pelve e da coluna já no Australopithecus afarensis, nos últimos cerca de 3 milhões de anos.
Fontes
- Lovejoy CO. The natural history of human gait and posture. Part 1. Spine and pelvis. Gait Posture. 2005. PMID 15536039; doi:10.1016/j.gaitpost.2004.01.001
- Hershkovitz I, Latimer B, Haeusler M et al. Evolutionary pathways to modern human bipedalism: evidence from the apophyseal ring of Australopithecus afarensis (A.L. 288-1). J Hum Evol. 2026. PMID 42561620; doi:10.1016/j.jhevol.2026.103877
- Plomp KA, Viðarsdóttir US, Weston DA et al. The ancestral shape hypothesis: an evolutionary explanation for the occurrence of intervertebral disc herniation in humans. BMC Evol Biol. 2015. PMID 25927934; doi:10.1186/s12862-015-0336-y
- Plomp KA, Dobney K, Weston DA et al. 3D shape analyses of extant primate and fossil hominin vertebrae support the ancestral shape hypothesis for intervertebral disc herniation. BMC Evol Biol. 2019. PMID 31842740; doi:10.1186/s12862-019-1550-9
- Plomp KA, Dobney K, Collard M. Spondylolysis and spinal adaptations for bipedalism: the overshoot hypothesis. Evol Med Public Health. 2020. PMID 32153781; doi:10.1093/emph/eoaa003
- Williams SA, Middleton ER, Villamil CI et al. Vertebral numbers and human evolution. Am J Phys Anthropol. 2016. PMID 26808105; doi:10.1002/ajpa.22901
- Whitcome KK, Shapiro LJ, Lieberman DE. Fetal load and the evolution of lumbar lordosis in bipedal hominins. Nature. 2007. PMID 18075592; doi:10.1038/nature06342
- Been E, Gómez-Olivencia A, Shefi S et al. Evolution of spinopelvic alignment in hominins. Anat Rec. 2017. PMID 28406567; doi:10.1002/ar.23559
- Sparrey CJ, Bailey JF, Safaee M et al. Etiology of lumbar lordosis and its pathophysiology: a review of the evolution of lumbar lordosis, and the mechanics and biology of lumbar degeneration. Neurosurg Focus. 2014. PMID 24785474; doi:10.3171/2014.1.FOCUS13551
- Kinoshita Y, Goto R, Nakano Y et al. A comparison of axial trunk rotation during bipedal walking between humans and Japanese macaques. Am J Phys Anthropol. 2021. PMID 32860450; doi:10.1002/ajpa.24136
- Putz RL, Müller-Gerbl M. The vertebral column: a phylogenetic failure? A theory explaining the function and vulnerability of the human spine. Clin Anat. 1996. PMID 8740482
- No livro A coluna sob carga: cap. 3.1–3.2, p. 11–12; cap. 3.3, p. 13

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F