O problema não é ficar parada: é ficar parada sem usar o músculo
"Ficar sentada o dia todo faz mal." Você provavelmente já leu isso. E talvez tenha pensado: mas meu trabalho é sentado, não tenho como mudar.
Um estudo com caçadores-coletores da Tanzânia traz uma nuance que muda a conversa. Eles também passam muitas horas parados. A diferença pode estar no que os músculos fazem enquanto isso. Este texto conta o que o estudo mostrou e o que ainda é hipótese.
Quem são os Hadza
Os Hadza são um povo de caçadores-coletores da Tanzânia, na África. Eles vivem de caçar e de coletar alimentos, sem fábricas, escritórios ou carros.
A surpresa: eles também ficam parados
Num estudo publicado em 2020, os pesquisadores mediram quanto tempo os Hadza passavam sem se deslocar. O resultado foi 9,90 horas por dia, em média (com variação de 2,36 horas para mais ou para menos entre as pessoas).
Esse tempo é parecido com o de populações industrializadas, como a nossa.
Ou seja: a ideia de que nossos antepassados viviam em movimento o dia inteiro não se confirma nesse grupo. Ficar parado por muitas horas não é uma invenção moderna.
A diferença está na forma de ficar parado
Se o tempo parado é parecido, o que muda? O estudo mostra que a diferença está na forma.
Boa parte do tempo parado dos Hadza é passada agachado. Nessa posição, os músculos das pernas trabalham mais do que quando a pessoa está sentada numa cadeira.
Os pesquisadores chamaram isso de repouso ativo: ficar parado numa posição em que os músculos continuam trabalhando um pouco.
Compare com uma reunião longa na cadeira. Você também está parada, mas o corpo está apoiado no assento e no encosto, e os músculos das pernas quase não trabalham. É um repouso com pouco músculo.
A hipótese do descompasso de inatividade
A partir desses dados, os autores propõem uma ideia. Eles a chamam de hipótese do descompasso de inatividade.
Hipótese é uma ideia proposta que ainda não foi testada direito. Vale guardar essa palavra, porque ela define o tamanho do que se pode afirmar.
A hipótese diz o seguinte: a fisiologia humana estaria adaptada a músculos ativos com mais regularidade, e não à ausência de períodos parados. Em outras palavras, o corpo humano estaria acostumado a ficar parado, sim, mas com o músculo trabalhando um pouco, e não com o músculo desligado por horas.
Se a hipótese estiver certa, o problema da vida moderna não seria ficar parada. Seria ficar parada sem usar o músculo.
O que o livro conclui
O livro A coluna sob carga usa esse estudo para dar nuance à frase popular de que o corpo "não foi feito para sentar". A leitura do livro é esta: o tempo parado não é novo. O que é novo é o tempo parado com músculo inativo.
O livro também lembra que sentar numa cadeira usa menos atividade muscular do que agachar. E que a vida moderna trocou parte da variação do dia, como agachar, ajoelhar, andar e carregar, por posições mantidas por muito tempo e com pouca atividade muscular.
O livro classifica essa leitura evolutiva como plausível: faz sentido e tem indícios, mas não foi demonstrada como causa.
O que isso tem a ver com as costas
O estudo dos Hadza mediu tempo parado e atividade muscular. Ele não mediu dor nas costas.
A ligação com a coluna vem de outros capítulos do livro. Eles mostram que ficar muito tempo na mesma posição muda os tecidos das costas, e que ficar muito tempo sentada se associa a dor, embora sem prova de causa. Esses temas estão nos textos sobre home office e dor nas costas e sobre pausas para mudar de posição.
Então, a mensagem não é "agache e a dor some". É mais modesta: trocar parte do tempo parado por posições com músculo ativo é uma ideia coerente com o que se sabe, mas ainda não testada como prevenção de dor.
Como isso pode aparecer no seu dia
Aqui vão exemplos do dia a dia, como ideias gerais. Nenhum deles é uma receita, e nenhum foi testado como tratamento.
- Assistir TV agachada ou ajoelhada no tapete, brincando com o neto, em vez de passar todo o tempo afundada no sofá, se essa posição for confortável para você.
- Durante uma reunião longa, ficar parte do tempo em pé, se a reunião permitir.
- Levantar para pegar água ou atender o telefone, em vez de deixar tudo ao alcance da mão.
O livro aponta, no nível do ambiente, a ideia de espaços e móveis que permitam mudar de posição e andar, o tal "repouso ativo". E classifica essa ideia como plausível, mas não testada.
Se agachar é desconfortável ou dói, isso não é um "fracasso". Cada corpo tem a sua capacidade, e a escolha das posições é individual.
O que este estudo não diz
Vale deixar claro os limites:
- o estudo foi feito com um povo específico, com um modo de vida muito diferente do nosso;
- ele não testou se agachar previne dor nas costas;
- ele não diz que sentar é perigoso;
- a ideia do descompasso de inatividade é uma hipótese.
Mesmo com esses limites, o estudo ajuda a sair da culpa. Ficar parada faz parte da vida humana há muito tempo. O ponto é variar e dar algum trabalho aos músculos ao longo do dia.
Se quiser ver o que se sabe sobre caminhada, leia caminhar ajuda a dor nas costas a não voltar?.
O que você leva deste texto
- Os Hadza passam cerca de 9,9 horas por dia parados, um tempo parecido com o nosso.
- A diferença está na forma: boa parte desse tempo é agachado, com mais trabalho dos músculos das pernas do que numa cadeira.
- A ideia de que o corpo está adaptado a músculos ativos com regularidade é uma hipótese, ainda não testada.
- Uma atitude possível, como sugestão geral: trocar parte do tempo parado por posições com músculo ativo, dentro do que é confortável para você.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
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Perguntas frequentes
Povos caçadores-coletores ficam parados?
Os Hadza, na Tanzânia, passam cerca de 9,9 horas por dia sem se deslocar, tempo parecido com o de populações industrializadas.
Então qual é a diferença?
Boa parte desse tempo eles ficam agachados, com mais trabalho dos músculos das pernas do que sentados numa cadeira. Os autores chamam isso de 'repouso ativo'. A ideia de que o corpo está adaptado a esse músculo ativo é uma hipótese.
Fontes
- Raichlen DA, Pontzer H, Zderic TW et al. Sitting, squatting, and the evolutionary biology of human inactivity. Proc Natl Acad Sci U S A. 2020. PMID 32152112; doi:10.1073/pnas.1911868117
- No livro A coluna sob carga: cap. 3.3, p. 13; cap. 6.3, p. 21–22; cap. 9.1, p. 28

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F