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Passar o dia sentada no home office dá dor nas costas?

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 7 min

Oito horas de reunião por vídeo. O almoço comido na frente do computador. Quando você percebe, passou o dia inteiro na mesma cadeira, e as costas reclamam no fim da tarde.

Este texto mostra o que as revisões de estudos encontraram sobre ficar muito tempo sentada e a dor nas costas, e o que elas ainda não conseguem dizer.

Dois termos para começar

Associação quer dizer que duas coisas aparecem juntas, sem prova de que uma causa a outra. Por exemplo: quem senta mais tempo pode ter mais dor, mas isso não prova que sentar é o que causa a dor.

Causalidade reversa é quando a dor é que leva ao hábito, e não o contrário. Quem já tem dor nas costas pode passar a se mexer menos e a ficar mais tempo sentado.

Esses dois termos são a chave para entender os números abaixo.

O que as revisões encontraram

Os estudos usam uma medida chamada OR, sigla em inglês para razão de chances. Ela compara a chance de algo acontecer num grupo com a chance no outro. Um OR de 1 quer dizer chance igual. Acima de 1, chance maior. Um OR de 1,47, por exemplo, quer dizer uma chance cerca de 47% maior.

Uma revisão com metanálise de 2021 reuniu estudos sobre dor e comportamento sedentário, no trabalho e fora dele. Ela encontrou:

  • sedentarismo no dia inteiro e dor lombar: OR 1,19;
  • sentar no trabalho e dor lombar: OR 1,47;
  • sentar no trabalho e dor no pescoço e no ombro: OR 1,73.

Outra revisão, também de 2021, encontrou associação entre tempo sentado prolongado e dor lombar, com OR 1,42.

Ou seja: quem passa mais tempo sentado tende a ter um pouco mais de dor nas costas e no pescoço.

Isso prova que sentar causa dor?

Não. E aqui está a parte mais importante deste texto.

Esses estudos são transversais: olham as pessoas num momento só. Eles mostram que sentar muito e dor aparecem juntos, mas não mostram o que veio primeiro.

Pode ser que sentar muito contribua para a dor. Mas também pode ser o contrário: a dor leva a pessoa a sentar mais e a se mexer menos. É a causalidade reversa.

O livro A coluna sob carga classifica a certeza desses achados como baixa. Os motivos são três: os estudos são transversais, a causalidade reversa é possível, e faltam estudos que acompanhem as pessoas ao longo do tempo.

O livro também lembra que o trabalho com tela tem associação com dor no pescoço e no ombro, mas apenas em estudos transversais.

Reduzir o tempo sentado ajuda?

Na revisão de 2021, reduzir o tempo sentado no trabalho associou-se a menos dor. É um sinal na direção esperada.

Mas há uma ressalva. Uma revisão Cochrane de 2019 olhou intervenções no trabalho para fazer as pessoas ficarem mais em pé ou andarem mais, como as estações senta-levanta, aquelas mesas que sobem e descem para trabalhar em pé ou sentado. Essas estações não reduziram de forma significativa os sintomas lombares no curto prazo. A certeza também foi baixa.

O livro registra isso de forma honesta. Uma frase do material de partida dizia que intervenções que reduzem o tempo sentado reduzem sintomas, sugerindo uma relação de causa que dá para mudar. O livro corrigiu a frase: há apoio parcial em uma revisão, mas o Cochrane não encontrou redução significativa com as estações senta-levanta.

Ou seja: trocar a mesa, sozinho, não mostrou resultado claro nos estudos.

Sentar muito também se liga à volta da dor

Há um dado que acompanha as pessoas ao longo do tempo. Um estudo de 2019 acompanhou pessoas que tinham se recuperado de uma crise de dor lombar. Sentar mais de 5 horas por dia estava entre os fatores que previram a volta da dor, junto com posturas desconfortáveis frequentes e mais de 2 crises anteriores.

O problema não é só sentar: é ficar parada

O livro faz uma leitura interessante. O tempo parado não é novo na história humana. O que é novo é o tempo parado com o músculo inativo. Sentar numa cadeira usa menos atividade muscular do que agachar, por exemplo.

O texto o problema não é ficar parada: é ficar parada sem usar o músculo explica essa ideia. E o texto ficar sentada esmaga o disco? mostra o que a pressão dentro do disco revela sobre sentar.

O que fazer com essa informação

Na tabela de implicações práticas, o livro coloca interromper o tempo sentado entre as ações que valem a pena no trabalho. E, para cada pessoa, variar a posição ao longo do dia.

Na prática do home office, isso pode ser simples:

  • levantar entre uma reunião por vídeo e outra;
  • almoçar longe do computador;
  • fazer algumas ligações em pé ou andando pela casa.

São sugestões gerais, não um tratamento. A ideia é quebrar o tempo sentado ao longo do dia, não encontrar a cadeira perfeita.

Um estudo com trabalhadores de escritório testou avisos para mudar de posição e encontrou menos dor lombar nova. O texto lembrete para mudar de posição conta esse estudo e seus limites.

O que você leva deste texto

  • Passar muito tempo sentada se associa a um pouco mais de dor nas costas e no pescoço.
  • Os estudos são de um momento só, e a dor também pode levar a pessoa a sentar mais. A certeza é baixa.
  • Reduzir o tempo sentado no trabalho associou-se a menos dor, mas as mesas senta-levanta não mostraram redução significativa.
  • Sentar mais de 5 horas por dia esteve entre os fatores que previram a volta da dor.
  • Quebrar o tempo sentado ao longo do dia é uma sugestão geral.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Se você trabalha de casa em Porto Alegre e quer entender o que acontece com as suas costas na sua rotina, veja na página inicial onde fica o atendimento.

Perguntas frequentes

Ficar muito tempo sentada tem relação com dor?

Revisões acharam associação: sentar no trabalho e dor lombar OR 1,47; dor no pescoço e ombro OR 1,73; tempo sentado prolongado OR 1,42.

Isso prova que sentar causa dor?

Não. Os estudos são de um momento só; a dor também pode levar a pessoa a sentar mais. A certeza é baixa.

Reduzir o tempo sentado ajuda?

Na revisão, reduzir o tempo sentado no trabalho associou-se a menos dor. Mas uma revisão Cochrane não achou redução clara dos sintomas lombares com mesas senta-levanta, no curto prazo. A certeza é baixa.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F