Ficar sentada esmaga o disco? Não exatamente
Quem trabalha sentada já ouviu que a cadeira "esmaga" os discos da coluna. A imagem assusta: oito horas por dia de pressão em cima de uma almofada frágil. Mas o que as medidas mostram?
Este texto explica o que é a pressão dentro do disco, como ela foi medida e o que muda de uma posição para outra. A resposta é mais tranquila e mais interessante do que o mito.
O que é o disco e o que é a pressão dentro dele
O disco é a "almofada" entre uma vértebra e outra. Ele tem um centro chamado núcleo pulposo, envolvido por um anel chamado ânulo.
A pressão intradiscal é a pressão dentro dessa almofada. O livro A coluna sob carga explica que o centro do disco se comporta como um sistema hidráulico: a pressão dentro dele sobe e desce conforme a carga que a coluna recebe.
As primeiras medidas: mais de 100 pessoas
Num trabalho publicado em 1981, o pesquisador Nachemson reuniu medidas da pressão no disco feitas em mais de 100 pessoas. Em comparação com ficar em pé, os resultados foram estes:
- reclinar o corpo reduziu a pressão em 50 a 80%;
- sentar sem apoio aumentou a pressão em cerca de 40%;
- inclinar o tronco para a frente ou levantar peso aumentou em mais de 100%;
- curvar e girar o tronco ao mesmo tempo aumentou em até 400%.
Foi daí que veio a ideia de que sentar aumenta muito a pressão no disco.
Medidas mais recentes: um voluntário, um sensor sem fio
Em 1999, outro grupo, liderado por Wilke, fez uma medida diferente. Eles colocaram um sensor dentro do disco de um voluntário, entre a quarta e a quinta vértebras lombares. O disco dele não tinha sinais de degeneração.
O sensor usava telemetria: uma medida feita por um sensor que envia os dados sem fio. Assim, foi possível medir a pressão enquanto a pessoa fazia atividades do dia a dia.
A pressão foi medida em MPa, uma unidade de pressão. Aqui, o número serve só para comparar posições. Os resultados confirmaram a ordem geral entre as posições, com uma diferença importante:
| Posição ou tarefa | Pressão no disco |
|---|---|
| Deitado de bruços | 0,10 MPa |
| Sentado de modo descontraído, relaxado | 0,30 MPa |
| Sentado sem apoio | 0,46 MPa |
| Em pé, relaxado | 0,50 MPa |
| Levantando 20 kg com as costas curvadas | 2,30 MPa |
Repare: sentar sem apoio deu pressão parecida com ficar em pé, ou até um pouco menor. E sentar de modo descontraído deu ainda menos.
Então quem está certo?
Os dois estudos concordam na ordem geral: deitado é menor, em pé ou sentado é intermediário, curvar com peso é maior. Eles diferem no detalhe de sentar versus ficar em pé.
O livro faz uma ressalva essencial. Os valores absolutos vêm de amostras muito pequenas. No estudo de Wilke, foi um voluntário só. Por isso, os números mostram a direção e a hierarquia entre as posições. Eles não são limites para a vida real, nem servem para dizer quanto pressão é "demais" para você.
O livro classifica assim: a direção está documentada, mas os valores exatos não devem ser generalizados.
O livro também corrigiu uma frase do material de partida. A frase dizia que ficar sentado reduz a hidratação do disco e aumenta a pressão dentro dele. Ela foi corrigida porque a medida de Wilke deu 0,46 MPa sentado sem apoio e 0,50 MPa em pé.
O que mais muda a pressão: o movimento, não a cadeira
Olhando a tabela, o maior salto não está entre sentar e ficar em pé. Está entre ficar parada e pegar peso com as costas curvadas.
Pense em pegar o cesto de roupa do chão. Na hora de curvar o tronco com o peso, a pressão no disco sobe bem mais do que em qualquer posição sentada. Isso não quer dizer que pegar o cesto seja perigoso. O disco é feito para receber carga. Quer dizer apenas que a carga muda muito de uma tarefa para outra.
E trabalhar no notebook no sofá? A medida de "sentado descontraído" mostra que nem toda posição relaxada aumenta a pressão. Mas o livro lembra que a pressão é só uma parte da história. Ficar muito tempo na mesma posição também mexe com outros tecidos, como os ligamentos. Em minutos a horas, a postura muda a rigidez desses tecidos.
Por que mudar de posição ajuda o disco
Os próprios autores do estudo de 1999 tiraram uma conclusão, com cautela: mudar de posição com frequência favorece o fluxo de líquido no disco e, com ele, a nutrição do disco.
Faz sentido quando se entende como o disco funciona. Ele muda ao longo do dia: perde água com a carga e recupera com o descanso. Durante a noite, por exemplo, a pressão no disco sobe de 0,10 para 0,24 MPa, à medida que ele se reidrata. O texto o disco perde água de dia e recupera à noite explica esse ciclo.
O livro sugere não ficar parada na mesma posição por horas. Nenhum estudo comparou isso com achar a cadeira ideal. O texto postura não é uma foto mostra por que a variação também pesa.
E a dor?
As medidas de pressão mostram o que acontece com o disco. Elas não mostram, sozinhas, se a pessoa vai sentir dor.
O livro deixa claro que o caminho entre a carga no tecido e a dor é fraco e passa por muitos fatores. Ficar muito tempo sentada se associa a mais dor nas costas em estudos de observação, mas sem prova de causa. Esse tema está no texto home office e dor nas costas.
O que você leva deste texto
- Nenhuma posição "esmaga" o disco. A pressão sobe e desce o dia todo, e o disco é feito para isso.
- Num voluntário medido com sensor, sentar sem apoio deu pressão parecida com ficar em pé.
- O maior aumento de pressão veio de curvar o tronco com peso, não de sentar.
- Os números mostram a ordem entre posições, não limites para a vida real.
- Os autores do estudo de 1999 concluem, com cautela, que mudar de posição favorece a nutrição do disco.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
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Perguntas frequentes
Sentar aumenta a pressão no disco?
Num voluntário medido com sensor, sentar sem apoio deu 0,46 MPa e ficar em pé relaxado 0,50 MPa: pressões parecidas. Sentar de modo descontraído deu 0,30 MPa.
Qual posição tem mais pressão?
Levantar 20 kg com as costas curvadas deu 2,30 MPa; deitado de bruços, 0,10 MPa. Os valores mostram a ordem entre posições, não limites para a vida real.
Fontes
- Wilke HJ, Neef P, Caimi M et al. New in vivo measurements of pressures in the intervertebral disc in daily life. Spine. 1999. PMID 10222525; doi:10.1097/00007632-199904150-00005
- Nachemson AL. Disc pressure measurements. Spine. 1981. PMID 7209680; doi:10.1097/00007632-198101000-00020
- No livro A coluna sob carga: cap. 2.1, p. 8; cap. 4.1, p. 14; Apêndice A, p. 33

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F