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Ficar sentada esmaga o disco? Não exatamente

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 6 min

Quem trabalha sentada já ouviu que a cadeira "esmaga" os discos da coluna. A imagem assusta: oito horas por dia de pressão em cima de uma almofada frágil. Mas o que as medidas mostram?

Este texto explica o que é a pressão dentro do disco, como ela foi medida e o que muda de uma posição para outra. A resposta é mais tranquila e mais interessante do que o mito.

O que é o disco e o que é a pressão dentro dele

O disco é a "almofada" entre uma vértebra e outra. Ele tem um centro chamado núcleo pulposo, envolvido por um anel chamado ânulo.

A pressão intradiscal é a pressão dentro dessa almofada. O livro A coluna sob carga explica que o centro do disco se comporta como um sistema hidráulico: a pressão dentro dele sobe e desce conforme a carga que a coluna recebe.

As primeiras medidas: mais de 100 pessoas

Num trabalho publicado em 1981, o pesquisador Nachemson reuniu medidas da pressão no disco feitas em mais de 100 pessoas. Em comparação com ficar em pé, os resultados foram estes:

  • reclinar o corpo reduziu a pressão em 50 a 80%;
  • sentar sem apoio aumentou a pressão em cerca de 40%;
  • inclinar o tronco para a frente ou levantar peso aumentou em mais de 100%;
  • curvar e girar o tronco ao mesmo tempo aumentou em até 400%.

Foi daí que veio a ideia de que sentar aumenta muito a pressão no disco.

Medidas mais recentes: um voluntário, um sensor sem fio

Em 1999, outro grupo, liderado por Wilke, fez uma medida diferente. Eles colocaram um sensor dentro do disco de um voluntário, entre a quarta e a quinta vértebras lombares. O disco dele não tinha sinais de degeneração.

O sensor usava telemetria: uma medida feita por um sensor que envia os dados sem fio. Assim, foi possível medir a pressão enquanto a pessoa fazia atividades do dia a dia.

A pressão foi medida em MPa, uma unidade de pressão. Aqui, o número serve só para comparar posições. Os resultados confirmaram a ordem geral entre as posições, com uma diferença importante:

Posição ou tarefaPressão no disco
Deitado de bruços0,10 MPa
Sentado de modo descontraído, relaxado0,30 MPa
Sentado sem apoio0,46 MPa
Em pé, relaxado0,50 MPa
Levantando 20 kg com as costas curvadas2,30 MPa

Repare: sentar sem apoio deu pressão parecida com ficar em pé, ou até um pouco menor. E sentar de modo descontraído deu ainda menos.

Então quem está certo?

Os dois estudos concordam na ordem geral: deitado é menor, em pé ou sentado é intermediário, curvar com peso é maior. Eles diferem no detalhe de sentar versus ficar em pé.

O livro faz uma ressalva essencial. Os valores absolutos vêm de amostras muito pequenas. No estudo de Wilke, foi um voluntário só. Por isso, os números mostram a direção e a hierarquia entre as posições. Eles não são limites para a vida real, nem servem para dizer quanto pressão é "demais" para você.

O livro classifica assim: a direção está documentada, mas os valores exatos não devem ser generalizados.

O livro também corrigiu uma frase do material de partida. A frase dizia que ficar sentado reduz a hidratação do disco e aumenta a pressão dentro dele. Ela foi corrigida porque a medida de Wilke deu 0,46 MPa sentado sem apoio e 0,50 MPa em pé.

O que mais muda a pressão: o movimento, não a cadeira

Olhando a tabela, o maior salto não está entre sentar e ficar em pé. Está entre ficar parada e pegar peso com as costas curvadas.

Pense em pegar o cesto de roupa do chão. Na hora de curvar o tronco com o peso, a pressão no disco sobe bem mais do que em qualquer posição sentada. Isso não quer dizer que pegar o cesto seja perigoso. O disco é feito para receber carga. Quer dizer apenas que a carga muda muito de uma tarefa para outra.

E trabalhar no notebook no sofá? A medida de "sentado descontraído" mostra que nem toda posição relaxada aumenta a pressão. Mas o livro lembra que a pressão é só uma parte da história. Ficar muito tempo na mesma posição também mexe com outros tecidos, como os ligamentos. Em minutos a horas, a postura muda a rigidez desses tecidos.

Por que mudar de posição ajuda o disco

Os próprios autores do estudo de 1999 tiraram uma conclusão, com cautela: mudar de posição com frequência favorece o fluxo de líquido no disco e, com ele, a nutrição do disco.

Faz sentido quando se entende como o disco funciona. Ele muda ao longo do dia: perde água com a carga e recupera com o descanso. Durante a noite, por exemplo, a pressão no disco sobe de 0,10 para 0,24 MPa, à medida que ele se reidrata. O texto o disco perde água de dia e recupera à noite explica esse ciclo.

O livro sugere não ficar parada na mesma posição por horas. Nenhum estudo comparou isso com achar a cadeira ideal. O texto postura não é uma foto mostra por que a variação também pesa.

E a dor?

As medidas de pressão mostram o que acontece com o disco. Elas não mostram, sozinhas, se a pessoa vai sentir dor.

O livro deixa claro que o caminho entre a carga no tecido e a dor é fraco e passa por muitos fatores. Ficar muito tempo sentada se associa a mais dor nas costas em estudos de observação, mas sem prova de causa. Esse tema está no texto home office e dor nas costas.

O que você leva deste texto

  • Nenhuma posição "esmaga" o disco. A pressão sobe e desce o dia todo, e o disco é feito para isso.
  • Num voluntário medido com sensor, sentar sem apoio deu pressão parecida com ficar em pé.
  • O maior aumento de pressão veio de curvar o tronco com peso, não de sentar.
  • Os números mostram a ordem entre posições, não limites para a vida real.
  • Os autores do estudo de 1999 concluem, com cautela, que mudar de posição favorece a nutrição do disco.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.

Perguntas frequentes

Sentar aumenta a pressão no disco?

Num voluntário medido com sensor, sentar sem apoio deu 0,46 MPa e ficar em pé relaxado 0,50 MPa: pressões parecidas. Sentar de modo descontraído deu 0,30 MPa.

Qual posição tem mais pressão?

Levantar 20 kg com as costas curvadas deu 2,30 MPa; deitado de bruços, 0,10 MPa. Os valores mostram a ordem entre posições, não limites para a vida real.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F