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O disco perde água de dia e recupera à noite

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 6 min

Você acorda bem e, no fim da tarde, as costas parecem mais cansadas. Ou já ouviu que a gente fica "mais baixa" no fim do dia. Tem a ver com o disco da coluna?

Este texto explica um fenômeno bem medido: o disco perde água ao longo do dia e recupera durante o descanso. Ele mostra os números dos estudos, o que eles querem dizer e o que eles não dizem.

O disco é uma almofada com água

O disco é a "almofada" entre uma vértebra e outra. O centro dele funciona como um sistema hidráulico, ou seja, que depende de líquido sob pressão.

Quando a coluna recebe carga, parte da água sai do disco. Quando a carga diminui, a água volta. Por isso o tamanho do disco muda ao longo do dia.

Dois termos vão ajudar. Volume do disco é o tamanho da almofada, que muda com a água dentro dela. Ressonância é um exame que faz imagens do corpo por dentro, sem radiação.

O que acontece num dia comum

Num estudo publicado em 2018, os pesquisadores fizeram duas ressonâncias em 8 jovens saudáveis no mesmo dia, com cerca de 7 horas de intervalo. Entre uma e outra, as pessoas seguiram o dia normalmente.

Eles olharam o disco L5–S1, o último disco da coluna lombar, logo acima da bacia. Os resultados:

  • o volume do disco caiu em média 9,3%, o que equivale a 1,1 cm³;
  • a altura do disco caiu 7,6%.

Ou seja: em poucas horas de vida normal, o disco já perde uma parte da água e fica um pouco mais baixo.

O que acontece num dia simulado

Um estudo mais antigo, de 1994, simulou um dia de atividade em laboratório. Os pesquisadores mediram os discos da parte baixa da coluna, do L3 ao S1, com ressonância.

O volume desses discos também diminuiu ao longo do dia. E a perda de altura do disco se deveu, sobretudo, à perda de volume, ou seja, à saída de água.

O que acontece à noite

E a recuperação? Um estudo de 2003 mostrou que uma noite deitado devolve, em média, 10,6% do volume do disco. Isso corresponde a 0,90 cm³ de líquido.

O mesmo estudo comparou com uma carga mais forte: carregar uma mochila com 40% do peso do corpo. Com essa mochila, o disco levou 4 horas para expelir a mesma quantidade de líquido que perde num dia comum. Ou seja, com uma carga maior, a perda de água foi mais rápida.

Outro estudo, que mediu a pressão dentro do disco com um sensor, mostrou o outro lado da moeda. Durante a noite, a pressão no disco sobe de 0,10 para 0,24 MPa, à medida que ele se reidrata. MPa é uma unidade de pressão. Aqui, os números servem só para mostrar que a pressão sobe enquanto o disco se enche de água.

Então a gente fica mais baixa no fim do dia?

A ideia popular de acordar "mais alta" e terminar o dia "mais baixa" combina com o que esses estudos mostram sobre o disco. Mas atenção: os estudos citados aqui mediram a altura e o volume do disco, não a altura da pessoa.

O que se pode dizer, com base neles, é que o disco fica um pouco mais baixo ao longo do dia e recupera durante o descanso deitado.

O ciclo carga e descanso

Juntando os estudos, o livro A coluna sob carga descreve o disco como um tecido hidráulico que depende do ciclo carga-descarga:

  • em minutos, a posição muda a carga no disco;
  • em horas, o ciclo de carga e descanso muda a quantidade de água dentro dele.

O livro classifica isso como documentado, isto é, medido diretamente em estudos que concordam entre si.

Pense num dia inteiro sentada no trabalho e, no fim da tarde, mais uma hora em pé no mercado. O disco passou o dia recebendo carga e perdendo um pouco de água. À noite, deitada, ele recupera. No dia seguinte, o ciclo recomeça.

Esse vaivém é normal. É assim que o disco funciona.

Por que esse ciclo importa

Os autores do estudo de 1999 concluem, com cautela, que mudar de posição favorece o fluxo de líquido e a nutrição do disco. Ou seja, o vaivém da água não é um defeito: ele faz parte de como o disco se mantém.

O texto ficar sentada esmaga o disco? mostra como a pressão muda de uma posição para outra. E o texto que tipo de movimento o disco parece gostar mostra que tipo de carga parece boa para ele.

Os limites desses números

O livro faz uma ressalva importante. Os valores vêm de amostras muito pequenas. O estudo de 2018 teve 8 pessoas, jovens e saudáveis. O estudo de 2003 teve 5 pessoas. A medida de pressão foi feita em um voluntário só.

Por isso, os números mostram como o disco se comporta, mas não devem ser usados como limites clínicos. Ninguém sabe, a partir deles, quanto de perda de água é "demais" para uma pessoa específica.

Também vale dizer: perder água ao longo do dia não é o mesmo que ter dor. Esses estudos mediram o disco, não a dor. O descanso também entra na conversa sobre sono e dor, tratada no texto dormir mal tem a ver com a dor nas costas?.

O que você leva deste texto

  • O disco perde um pouco de água ao longo do dia: em 8 jovens, o disco L5–S1 perdeu em média 9,3% do volume em cerca de 7 horas.
  • Uma noite deitado devolve em média 10,6% do volume.
  • Com carga maior, o disco perdeu água mais rápido.
  • Esse ciclo de carga e descanso é normal e faz parte da nutrição do disco.
  • Os números vêm de amostras pequenas e não são limites para a vida real.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.

Perguntas frequentes

O disco muda ao longo do dia?

Sim. Em 8 jovens saudáveis, o disco L5–S1 perdeu em média 9,3% do volume em cerca de 7 horas de um dia comum.

Ele recupera?

Uma noite deitado devolveu em média 10,6% do volume. Durante a noite, a pressão no disco sobe à medida que ele se reidrata.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F