Dez ideias para entender a sua coluna (com glossário simples)
Sua irmã também tem dor nas costas, e vocês vivem trocando dicas. Uma ouviu que é a postura. A outra, que é o "desgaste" do exame. E se houvesse um resumo simples, com o que a ciência diz de fato, para mandar para ela?
Este texto é esse resumo. Ele adapta o último capítulo do livro A coluna sob carga, que junta tudo em dez pontos e traz um glossário, que é uma lista de palavras com o significado. Também traz o princípio que o livro usa para decidir onde vale a pena investir esforço.
Antes: como ler a certeza
Nem toda conclusão tem a mesma força. Por isso, o livro usa o GRADE, um sistema que diz o quanto podemos confiar numa conclusão. Ele vai de alta a moderada, baixa e muito baixa.
Quando a revisão de origem não aplicou o GRADE, os autores do livro dão o seu próprio julgamento da força da ligação:
- documentado: medido diretamente, em estudos que concordam;
- plausível: há um mecanismo e uma associação, mas falta mostrar que é causa em pessoas;
- hipótese: algo proposto, que ainda não teve um teste adequado.
Vale lembrar disso ao ler os dez pontos.
As dez ideias
1. A coluna vem de milhões de anos de carga
A coluna humana é resultado de milhões de anos de carga bípede, ou seja, de andar e ficar em pé sobre dois pés.
E a dor lombar não é exclusiva da vida moderna. Os Tsimane, um povo da Bolívia que vive de trabalho físico de subsistência, também têm dor lombar crônica. Entre eles, a dor aumenta com a idade, sobretudo nas costas. Para os autores do livro, isso está documentado, mas numa população só.
2. O que mudou foi o tipo de carga
O século XXI não criou a dor nas costas. O que ele mudou, segundo o livro, foi o perfil de carga.
Há mais tempo parado com os músculos sem trabalhar, mais telas e uma vida mais longa. Esse é o cenário em que a coluna trabalha hoje.
3. A postura muda a carga, e a carga muda o tecido
Esta é a parte mais firme da cadeia. A postura muda a carga sobre a coluna. E a carga muda o tecido, em minutos e em semanas.
Em minutos, mudam a pressão dentro do disco e o creep, que é a deformação lenta de um tecido sob uma carga constante. Em semanas, mudam o músculo e o disco. Esse jeito de pensar a postura está em Postura não é uma foto: o que é carga, capacidade e por que a coluna se adapta.
4. O tecido se adapta dentro de uma faixa
O tecido se adapta à carga dentro de uma faixa. E perde nas duas pontas:
- no desuso, quando quase não recebe carga;
- na sobrecarga sem recuperação, quando recebe carga demais sem tempo de se recuperar.
Ou seja, nem pouca carga nem carga demais sem descanso fazem bem ao tecido.
5. Tirar a carga é um estímulo forte contra o tecido
Ficar muito tempo de cama, ou ir ao espaço, onde quase não há gravidade (a microgravidade), são o que o livro chama de experimento natural. É uma situação real em que a exposição muda sem que o pesquisador interfira.
Nesses casos, a retirada de carga foi um estímulo negativo forte e que dura. O corpo perde quando deixa de ser usado.
6. O "desgaste" no exame é comum sem dor
Os achados de "desgaste" na imagem são comuns em pessoas sem dor e aumentam com a idade.
Numa revisão de 2015, com 3.110 pessoas sem dor nas costas, a degeneração do disco passou de 37% aos 20 anos para 96% aos 80 anos. O abaulamento do disco passou de 30% para 84%.
Por isso, um laudo com essas palavras não quer dizer, sozinho, que a dor vem dali.
7. A ligação entre a função e a dor é fraca
O livro chama de função o modo como os tecidos trabalham, como o disco, o músculo e o nervo. A ligação entre essa função e a dor é fraca. E ela passa por outros fatores:
- o processamento nervoso, que é o modo como o sistema nervoso regula a dor;
- o sono;
- as crenças sobre a dor;
- o trabalho;
- a genética.
8. Corrigir a postura não tem prova de prevenir; exercício com educação tem
Corrigir a forma da postura não tem demonstração de que previna dor. Uma revisão de 2020 com 41 revisões não achou consenso de que a postura cause dor lombar: há associações, mas não explicação de causa. Esse tema está em Corrigir a postura previne dor nas costas?.
Já o exercício combinado com educação reduz o risco de uma crise de dor lombar, com certeza moderada. Numa revisão de 2016, o RR foi 0,55. RR é um número que compara o risco entre quem fez e quem não fez algo. RR 0,55 quer dizer um risco 45% menor.
O exercício sozinho tem certeza de baixa a muito baixa. E a caminhada progressiva com educação reduziu a volta da dor, num ensaio. Esse assunto está em O que ajuda a prevenir dor nas costas (e o que não ajuda).
9. Ficar muito tempo na mesma exposição pesa mais quando a dor volta
A exposição sustentada, como ficar muito tempo sentada ou em posturas desconfortáveis, parece pesar mais na volta da dor do que na primeira crise.
É uma ligação de previsão, e não de causa. Ou seja, ajuda a prever quem tem mais chance de ter a dor de volta, mas não prova que é o motivo.
10. Cada um cuida de uma parte
O último ponto fala de onde colocar o esforço:
- a pessoa cuida da capacidade e da variação de posição;
- o trabalho reduz a exposição na origem, por exemplo com a organização das tarefas e os equipamentos;
- o sistema de saúde investe em cuidado de primeira linha;
- a pesquisa precisa de ensaios que testem se dá para evitar a primeira crise.
O princípio por trás dos dez pontos
O livro tem uma regra simples para decidir onde investir. Se a ligação entre postura e função é forte, e a ligação entre função e dor é fraca, os recursos devem ir para o que muda a exposição e a capacidade e tem resultado clínico demonstrado. E devem sair do que apenas corrige a forma visível.
Na prática, o livro dá exemplos por nível de ação:
- para a pessoa: atividade física regular e progressiva, incluindo caminhada, e variar a posição ao longo do dia. Reduzir a busca por uma "postura correta" fixa e o repouso prolongado;
- para o profissional de saúde: explicar que achados de imagem são comuns sem dor. Evitar exame de imagem de rotina e palavras como "desgaste" e "coluna torta";
- para o sistema de saúde: cuidado de primeira linha sem remédio, voltado à função e ao trabalho.
O livro avisa que essa tabela não substitui o julgamento clínico nem é uma prescrição individual.
Glossário simples
Estas são as palavras do glossário do livro, explicadas de forma simples.
- Alinhamento (forma): a posição das partes do corpo umas em relação às outras numa postura parada, como numa foto.
- Capacidade: a carga que o tecido tolera antes de falhar ou de deixar de se adaptar.
- Carga cumulativa: a soma do peso vezes as repetições ao longo do tempo.
- Creep: a deformação lenta de um tecido sob uma carga constante.
- DMCI: diferença mínima clinicamente importante. É a menor diferença que faz diferença para a vida da pessoa.
- Experimento natural: uma situação real em que a exposição muda sem que o pesquisador interfira, como o repouso na cama ou a ida ao espaço.
- GRADE: um sistema que diz o quanto podemos confiar numa conclusão. Vai de alta a moderada, baixa e muito baixa.
- Mecanotransdução: a transformação da carga mecânica em sinal biológico dentro da célula. É como o tecido "sente" a carga.
- Nódulo de Schmorl: uma marca no osso da vértebra, deixada quando o disco avança para dentro dela.
- ODI: um questionário de 0 a 100 que mede o quanto a dor atrapalha a vida.
- OR, RR e HR: números que comparam a chance ou o risco entre dois grupos. Em todos eles, 1 quer dizer "sem diferença".
- Prevenção primária e secundária: evitar a primeira crise e evitar que a dor volte.
- T2 (ressonância): uma medida da ressonância que reflete sobretudo a água do disco.
- YLD: anos vividos com incapacidade. É uma forma de medir o quanto uma doença pesa na vida das pessoas.
O que você leva deste texto
- A coluna vem de milhões de anos de carga em pé, e a dor lombar não é exclusiva da vida moderna.
- A postura muda a carga e o tecido, mas a ligação entre o tecido e a dor é fraca e passa por outros fatores.
- Achados de "desgaste" no exame são comuns sem dor e aumentam com a idade.
- Exercício com educação reduz o risco de uma crise de dor lombar, com certeza moderada. Corrigir a postura não tem essa prova.
- O glossário acima ajuda a ler laudos, artigos e conversas sobre a coluna.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
Para conhecer o atendimento, veja a página principal.
Perguntas frequentes
A dor nas costas é coisa da vida moderna?
Não. A coluna vem de milhões de anos de carga em pé, e a dor lombar não é exclusiva da vida moderna.
O que tem mais prova para prevenir?
Exercício com educação reduz o risco de uma crise de dor lombar, com certeza moderada. Corrigir a postura não tem essa prova.
Exame com 'desgaste' é sinal de problema?
Esses achados são comuns sem dor e aumentam com a idade.
Fontes
- Swain CTV, Pan F, Owen PJ et al. No consensus on causality of spine postures or physical exposure and low back pain: A systematic review of systematic reviews. J Biomech. 2020. PMID 31451200; doi:10.1016/j.jbiomech.2019.08.006.
- Steffens D, Maher CG, Pereira LS et al. Prevention of Low Back Pain: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Intern Med. 2016. PMID 26752509; doi:10.1001/jamainternmed.2015.7431.
- Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015. PMID 25430861; doi:10.3174/ajnr.A4173.
- No livro A coluna sob carga: cap. 10 inteiro (10.1 e 10.2), p. 31–32; cap. 9.1, p. 28.

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F