Por que a dor nem sempre mostra um dano
Você fez raio X, ressonância, exames de sangue. Tudo veio "normal", ou com achados que o médico disse serem comuns. E a dor continua. Fica a dúvida: se não acharam nada, a dor é de verdade?
A dor é de verdade. Este texto explica por que, na dor nas costas, muitas vezes não se encontra uma causa única no exame, e o que os estudos mostram sobre isso.
Dor lombar inespecífica: um nome que confunde
Quando o exame não mostra uma causa única para a dor nas costas, os profissionais usam o nome dor lombar inespecífica. Quer dizer dor sem uma causa única identificada no exame.
O nome não quer dizer que a dor é inventada, nem que é "da cabeça". Quer dizer só que não há um único ponto do tecido que explique tudo.
E esse é o caso da grande maioria. Um artigo de revisão sobre dor lombar, publicado em 2018 na revista Lancet, resumiu: em quase todas as pessoas com dor lombar, não é possível identificar uma causa específica no tecido.
Por que a imagem e a dor não andam juntas
O livro A coluna sob carga dedica uma seção a explicar por que as mudanças da coluna não viram dor de forma direta. Dois dos achados ajudam a entender o exame "normal" e a dor que continua.
Primeiro: os achados de imagem são comuns em quem não tem dor
Uma revisão de 2015 juntou 33 estudos com 3.110 pessoas sem dor nas costas. A degeneração do disco aparecia em 37% das pessoas aos 20 anos e em 96% aos 80 anos. O abaulamento do disco passava de 30% para 84%.
Um estudo de 1994 fez ressonância em 98 pessoas sem dor. Só 36% delas tinham todos os discos normais.
Ou seja: muita coisa que aparece no laudo também aparece em quem não sente nada. Por isso, o achado do exame nem sempre é a explicação da dor. Como ler essas palavras está em Seu exame mostra 'desgaste': como ler sem medo.
Segundo: o sistema nervoso participa da dor
O sistema nervoso é o cérebro, a medula e os nervos. Uma forma simples de pensar é que ele "regula o volume" da dor.
Segundo esse artigo da Lancet, os mecanismos centrais de modulação da dor têm papel importante na dor que persiste. "Modulação" é justamente esse ajuste de volume. As crenças sobre a dor, ou seja, o que a pessoa pensa e teme sobre ela, também têm papel importante.
Isso não quer dizer que a dor é imaginada. Quer dizer que, além do tecido, o modo como o sistema nervoso regula a dor também pesa.
O que mais pesa, segundo o livro
Na síntese final, o livro A coluna sob carga resume a ligação entre a função da coluna e a dor em uma frase: o elo é fraco e passa por outros fatores.
Os fatores que o livro cita são:
- o processamento nervoso, que é o modo como o sistema nervoso regula a dor;
- o sono;
- as crenças sobre a dor;
- o trabalho;
- a genética.
Cada um desses fatores tem seus próprios estudos, com certezas diferentes. O sono, por exemplo, foi estudado como fator de previsão da evolução da dor lombar. O que se sabe sobre ele está em Dormir mal tem a ver com a dor nas costas?.
Quando o "alarme" fica sensível
Existe ainda um tipo de dor que a ciência da dor chama de nociplástica. A ideia é que o "alarme" da dor fica com o volume alto, mesmo sem um dano que explique a dor por inteiro.
É um assunto que pede cuidado, porque ninguém deve se rotular a partir de um texto. Ele está explicado em Dor nociplástica: quando o 'alarme' da dor fica sensível demais.
O que isso muda para quem tem dor
O exame "normal" não quer dizer que a dor é inventada. E um achado no laudo também não quer dizer, sozinho, que ele é a causa da dor.
Este texto explica o que os estudos mostram em grupos de pessoas. A avaliação de cada caso é feita em consulta, com exame e conversa.
O que você leva deste texto
- Em quase todas as pessoas com dor lombar, não é possível identificar uma causa específica no tecido.
- Dor lombar inespecífica não quer dizer dor inventada. Quer dizer dor sem uma causa única identificada no exame.
- Achados de imagem são comuns em pessoas sem dor e aumentam com a idade.
- O sistema nervoso e as crenças sobre a dor têm papel importante na dor que persiste, ao lado de sono, trabalho e genética.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
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Perguntas frequentes
Por que não acham a causa da minha dor?
Em quase todas as pessoas com dor lombar não é possível identificar uma causa específica no tecido.
O que mais pesa?
O livro cita o modo como o sistema nervoso regula a dor e as crenças sobre a dor, além de sono, trabalho e genética.
Fontes
- Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018. PMID 29573870; doi:10.1016/S0140-6736(18)30480-X.
- Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015. PMID 25430861; doi:10.3174/ajnr.A4173 (citado no cap. 7.1 do livro).
- Jensen MC, Brant-Zawadzki MN, Obuchowski N et al. Magnetic resonance imaging of the lumbar spine in people without back pain. N Engl J Med. 1994. PMID 8208267; doi:10.1056/NEJM199407143310201 (citado no cap. 7.1 do livro).
- No livro A coluna sob carga: cap. 7.1, p. 23; cap. 10.1, p. 31.

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F