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Por que a dor nem sempre mostra um dano

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 5 min

Você fez raio X, ressonância, exames de sangue. Tudo veio "normal", ou com achados que o médico disse serem comuns. E a dor continua. Fica a dúvida: se não acharam nada, a dor é de verdade?

A dor é de verdade. Este texto explica por que, na dor nas costas, muitas vezes não se encontra uma causa única no exame, e o que os estudos mostram sobre isso.

Dor lombar inespecífica: um nome que confunde

Quando o exame não mostra uma causa única para a dor nas costas, os profissionais usam o nome dor lombar inespecífica. Quer dizer dor sem uma causa única identificada no exame.

O nome não quer dizer que a dor é inventada, nem que é "da cabeça". Quer dizer só que não há um único ponto do tecido que explique tudo.

E esse é o caso da grande maioria. Um artigo de revisão sobre dor lombar, publicado em 2018 na revista Lancet, resumiu: em quase todas as pessoas com dor lombar, não é possível identificar uma causa específica no tecido.

Por que a imagem e a dor não andam juntas

O livro A coluna sob carga dedica uma seção a explicar por que as mudanças da coluna não viram dor de forma direta. Dois dos achados ajudam a entender o exame "normal" e a dor que continua.

Primeiro: os achados de imagem são comuns em quem não tem dor

Uma revisão de 2015 juntou 33 estudos com 3.110 pessoas sem dor nas costas. A degeneração do disco aparecia em 37% das pessoas aos 20 anos e em 96% aos 80 anos. O abaulamento do disco passava de 30% para 84%.

Um estudo de 1994 fez ressonância em 98 pessoas sem dor. Só 36% delas tinham todos os discos normais.

Ou seja: muita coisa que aparece no laudo também aparece em quem não sente nada. Por isso, o achado do exame nem sempre é a explicação da dor. Como ler essas palavras está em Seu exame mostra 'desgaste': como ler sem medo.

Segundo: o sistema nervoso participa da dor

O sistema nervoso é o cérebro, a medula e os nervos. Uma forma simples de pensar é que ele "regula o volume" da dor.

Segundo esse artigo da Lancet, os mecanismos centrais de modulação da dor têm papel importante na dor que persiste. "Modulação" é justamente esse ajuste de volume. As crenças sobre a dor, ou seja, o que a pessoa pensa e teme sobre ela, também têm papel importante.

Isso não quer dizer que a dor é imaginada. Quer dizer que, além do tecido, o modo como o sistema nervoso regula a dor também pesa.

O que mais pesa, segundo o livro

Na síntese final, o livro A coluna sob carga resume a ligação entre a função da coluna e a dor em uma frase: o elo é fraco e passa por outros fatores.

Os fatores que o livro cita são:

  • o processamento nervoso, que é o modo como o sistema nervoso regula a dor;
  • o sono;
  • as crenças sobre a dor;
  • o trabalho;
  • a genética.

Cada um desses fatores tem seus próprios estudos, com certezas diferentes. O sono, por exemplo, foi estudado como fator de previsão da evolução da dor lombar. O que se sabe sobre ele está em Dormir mal tem a ver com a dor nas costas?.

Quando o "alarme" fica sensível

Existe ainda um tipo de dor que a ciência da dor chama de nociplástica. A ideia é que o "alarme" da dor fica com o volume alto, mesmo sem um dano que explique a dor por inteiro.

É um assunto que pede cuidado, porque ninguém deve se rotular a partir de um texto. Ele está explicado em Dor nociplástica: quando o 'alarme' da dor fica sensível demais.

O que isso muda para quem tem dor

O exame "normal" não quer dizer que a dor é inventada. E um achado no laudo também não quer dizer, sozinho, que ele é a causa da dor.

Este texto explica o que os estudos mostram em grupos de pessoas. A avaliação de cada caso é feita em consulta, com exame e conversa.

O que você leva deste texto

  • Em quase todas as pessoas com dor lombar, não é possível identificar uma causa específica no tecido.
  • Dor lombar inespecífica não quer dizer dor inventada. Quer dizer dor sem uma causa única identificada no exame.
  • Achados de imagem são comuns em pessoas sem dor e aumentam com a idade.
  • O sistema nervoso e as crenças sobre a dor têm papel importante na dor que persiste, ao lado de sono, trabalho e genética.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Para conhecer o atendimento, veja a página principal.

Perguntas frequentes

Por que não acham a causa da minha dor?

Em quase todas as pessoas com dor lombar não é possível identificar uma causa específica no tecido.

O que mais pesa?

O livro cita o modo como o sistema nervoso regula a dor e as crenças sobre a dor, além de sono, trabalho e genética.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F