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Dor nociplástica: quando o 'alarme' da dor fica sensível demais

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 8 min

Algumas pessoas contam uma dor que não cabe no exame. Começa nas costas, depois aparece no pescoço e nos ombros, sem ter feito esforço. A alça da bolsa incomoda mais do que antes. O elástico da roupa parece apertar demais. E o laudo da ressonância não mostra nada que explique tanto.

Para esse tipo de quadro, a ciência da dor tem um nome: dor nociplástica. Este texto explica o que é, o que as revisões descrevem e por que só uma avaliação pode dizer algo sobre uma pessoa.

Um aviso antes de começar: este texto não serve para dar nome à dor de ninguém. Ele explica um conceito.

As três formas de dor

Em 2021, uma revisão publicada na revista The Lancet propôs organizar a dor em três formas, de acordo com o jeito como ela surge.

Dor nociceptiva é a dor que vem de um tecido machucado ou inflamado. Um tornozelo torcido, um corte no dedo, uma articulação inflamada.

Dor neuropática é a dor que vem de um nervo lesado ou apertado. É o caso de uma raiz de nervo irritada na coluna, com dor que desce pela perna.

Dor nociplástica é a terceira forma. Nela, o sistema nervoso aumenta o sinal, sem lesão que explique tudo. Os autores descrevem um processamento aumentado dos sinais no sistema nervoso central (cérebro e medula) e uma regulação alterada da dor.

A diferença está na origem. Nas duas primeiras, há um tecido ou um nervo que explica a dor. Na terceira, a dor fica mais forte ou mais espalhada do que o dano encontrado explicaria.

O "alarme" com o volume alto

Uma imagem ajuda. Pense no alarme de fumaça da cozinha. Ele existe para avisar de um incêndio. Mas um alarme muito sensível dispara com o vapor da panela.

O vapor é real. O som do alarme também é real e incomoda de verdade. O problema está na sensibilidade do aparelho, e não num incêndio escondido.

Na dor nociplástica, a ideia é parecida. A palavra usada é sensibilização: o "alarme" do corpo fica com o volume alto. A dor é real, às vezes forte, mesmo sem um dano que a explique por inteiro.

A comparação é só uma imagem para entender. O sistema nervoso é muito mais complexo que um alarme.

Que sinais as revisões descrevem

Uma revisão de 2024, publicada na revista Nature Reviews Neurology, descreveu o que costuma aparecer junto com a dor nociplástica:

  • dor em várias regiões do corpo;
  • cansaço;
  • sono ruim;
  • dificuldade de concentração e de memória;
  • alterações de humor, como depressão e ansiedade;
  • mais sensibilidade a estímulos que não doem, como luz, barulho e cheiros.

A mesma revisão fala de dois fenômenos com nomes difíceis:

  • hiperalgesia: sentir dor maior que o esperado com algo que normalmente dói pouco;
  • alodinia: sentir dor com algo que normalmente não dói, como um toque leve ou o tecido da roupa.

É por isso que a alça da bolsa ou o elástico da roupa podem ser exemplos do dia a dia. São estímulos que, em geral, não doem.

Os autores também descrevem dois subtipos propostos, com características diferentes no sistema nervoso e respostas diferentes ao tratamento. Esse ponto ainda está em estudo.

Ter um desses sinais não quer dizer nada sozinho

Quase todo mundo tem uma semana de sono ruim, de cansaço ou de estresse. Quase todo mundo já se incomodou com barulho. Nenhum desses sinais, sozinho, define um tipo de dor.

As revisões descrevem um conjunto que costuma andar junto. Não são uma lista para conferir em casa.

Sono e dor andam juntos

O sono aparece de novo e de novo nessas revisões. Há mais sobre isso em Dormir mal tem a ver com a dor nas costas?.

Sobre dores no corpo nessa fase da vida, veja Menopausa e dores no corpo: o que os estudos mostram.

Como os profissionais avaliam

Em 2021, um grupo de pesquisadores publicou critérios clínicos e um sistema de graduação para a dor nociplástica crônica que afeta músculos, ossos e articulações.

"Graduar" quer dizer dar um grau de confiança. Uma revisão de 2024 descreve dois graus:

  • possível: dor crônica numa região do corpo, com sensibilidade aumentada quando a região é examinada, incluindo dor com estímulos leves que continua depois que o estímulo para;
  • provável: além disso, sensibilidade a estímulos que não doem na região da dor, junto com outros problemas, como sono ruim, cansaço ou dificuldade de concentração, com mais sensibilidade a luz, som ou cheiro.

Critérios para dizer que a dor nociplástica é "definitiva" ainda não existem.

Repare que esses critérios pedem exame. "Sensibilidade aumentada quando a região é examinada" é algo que o profissional verifica com as mãos e com perguntas, na consulta.

E a dor lombar?

Em 2024, um grupo internacional chamado BACPAP publicou um consenso sobre a dor lombar. Consenso é um acordo entre especialistas, feito com um método de discussão organizado. Participaram 36 clínicos e pesquisadores de 13 países e 29 instituições.

O objetivo foi recomendar como identificar o tipo de dor que predomina em quem tem dor lombar: nociceptiva, neuropática ou nociplástica.

A ressalva é dos próprios autores: as recomendações ainda não estão prontas para uso na prática clínica, até que haja mais estudos específicos.

Ou seja: mesmo para os especialistas, separar os tipos de dor na dor lombar ainda é um trabalho em andamento.

O que tudo isso muda para quem sente dor

Primeiro, uma dor pode ser real e forte sem uma lesão que a explique. O exame "normal" não quer dizer que a dor é imaginária. Esse ponto está explicado em Por que a dor nem sempre mostra um dano.

Segundo, o tipo de dor é avaliado em consulta, com exame e conversa. Não é algo que um texto, um teste da internet ou uma lista de sinais consiga dizer.

As revisões citadas aqui não trazem números de efeito de tratamento. Elas descrevem o conceito e os sinais. Por isso, este texto também não fala de tratamento.

O que você leva deste texto

  • Dor nociplástica é uma terceira forma de dor, ao lado da que vem de um tecido e da que vem de um nervo.
  • Nela, o sistema nervoso aumenta o sinal, e a dor pode ficar mais forte ou mais espalhada do que o dano explica.
  • As revisões descrevem sinais que costumam vir junto, como dor em várias regiões, cansaço, sono ruim e mais sensibilidade a luz, barulho e cheiros.
  • Existem critérios clínicos para graduar a dor como possível ou provável. Isso pede avaliação.
  • Para a dor lombar, o consenso de 2024 ainda não está pronto para a prática, segundo os próprios autores.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Para conhecer o atendimento, veja a página principal.

Perguntas frequentes

O que é dor nociplástica?

É uma terceira forma de dor, ao lado da que vem de um tecido machucado e da que vem de um nervo. Nela, o sistema nervoso processa os sinais de forma aumentada, e a dor fica mais forte ou mais espalhada do que o dano explica.

Que sinais costumam vir junto?

Revisões descrevem dor em várias regiões do corpo, cansaço, sono ruim, dificuldade de concentração e alterações de humor, além de mais sensibilidade a luz, barulho e cheiros.

Dá para saber pelo texto se a minha dor é desse tipo?

Não. Existem critérios clínicos para o profissional graduar a dor como possível ou provável, e isso pede avaliação. Para a dor lombar, um consenso de 2024 propôs como separar os tipos, mas os próprios autores dizem que ainda não está pronto para a prática.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F