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Seu exame mostra 'desgaste': como ler sem medo

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 7 min

O resultado da ressonância chega por e-mail antes da consulta. Você abre o laudo no celular e lê: "alterações degenerativas", "abaulamento discal", "desidratação do disco". Depois vem a pesquisa, palavra por palavra, na internet. E o medo cresce a cada linha.

Este texto explica o que essas palavras querem dizer e o que os estudos mostram sobre elas. A ideia central é simples: o laudo sozinho não explica a dor.

O que as palavras do laudo querem dizer

Os laudos usam termos técnicos. Alguns dos mais comuns:

  • Degeneração discal, nos laudos, é o nome dado a mudanças do disco vistas na imagem: o disco mais baixo, com menos água ou com abaulamento. O disco é a almofada entre uma vértebra e outra.
  • Abaulamento: o disco que passa um pouco da borda da vértebra.
  • Protrusão e extrusão: formas em que o material do disco avança além da borda. Na extrusão, ele vai mais longe que na protrusão.
  • Modic: alteração no osso vizinho ao disco que aparece na ressonância. Existem tipos, como o tipo 1.

Muitas pessoas leem "degeneração" como "desgaste", como se a coluna estivesse se gastando, igual a um pneu. Os estudos mostram outro quadro.

Achados comuns em quem não tem dor

Assintomático quer dizer sem sintomas, sem dor. Uma revisão de 2015 juntou 33 estudos com 3.110 pessoas assintomáticas que fizeram exame de imagem da coluna.

O que apareceu nessas pessoas sem dor:

  • a degeneração discal estava presente em 37% das pessoas de 20 anos e em 96% das de 80 anos;
  • o abaulamento discal passou de 30% aos 20 anos para 84% aos 80 anos.

Leia de novo: 96% das pessoas de 80 anos sem dor tinham degeneração do disco na imagem. É quase todo mundo.

O exame "normal" é raro

Um estudo de 1994, publicado no New England Journal of Medicine, fez ressonância da coluna lombar em 98 pessoas sem dor nas costas.

Só 36% delas tinham todos os discos normais. Ou seja, quase dois terços das pessoas sem dor tinham algum achado no disco.

Esses dois estudos mostram por que um achado no laudo não quer dizer, sozinho, que ele é a causa da dor.

Envelhecer não é o mesmo que adoecer

Em 2006, dois pesquisadores, Adams e Roughley, propuseram separar duas coisas que costumam vir misturadas:

  • o envelhecimento do disco, que acontece com todo mundo;
  • a degeneração, que eles definem como uma resposta anormal das células a uma falha que vai piorando na estrutura do disco.

Por essa definição, só o disco degenerado que também dói deveria ser chamado de "doença discal degenerativa".

O livro A coluna sob carga usa essa ideia para lembrar: "degeneração" na imagem descreve a estrutura, a forma do tecido. Ela não descreve a função, que é como o tecido se comporta quando recebe carga. São coisas diferentes.

Mas alguns achados aparecem mais em quem tem dor

Isso não quer dizer que a imagem não tenha valor nenhum. Uma revisão de 2015, com 14 estudos e 3.097 pessoas, comparou adultos de até 50 anos com dor lombar e sem dor.

Alguns achados foram mais frequentes em quem tinha dor. Os resultados vêm em OR, um número que compara a chance de algo aparecer em dois grupos. Quanto maior que 1, mais o achado foi comum em quem tinha dor.

  • abaulamento: OR 7,54;
  • espondilólise (uma pequena falha numa parte da vértebra): OR 5,06;
  • extrusão do disco: OR 4,38;
  • Modic tipo 1: OR 4,01;
  • protrusão do disco: OR 2,65;
  • degeneração discal: OR 2,24.

São estudos de observação. E um ponto importante: mesmo esses achados também existem em muitas pessoas sem dor. Aparecer mais em um grupo não quer dizer que explica a dor de cada pessoa.

A ressonância diz se eu vou melhorar?

Essa é uma das perguntas mais comuns. Um estudo de 2013, também no New England Journal of Medicine, ajuda a responder.

Os pesquisadores acompanharam 283 pessoas com ciática, a dor que desce para a perna, por hérnia de disco, tratadas com ou sem cirurgia. Um ano depois, elas fizeram uma nova ressonância.

O que aconteceu:

  • 84% das pessoas relataram um bom resultado depois de um ano;
  • entre quem tinha hérnia ainda visível na imagem, 85% tiveram bom resultado;
  • entre quem não tinha mais hérnia visível, 83% tiveram bom resultado.

Ou seja: ter ou não ter hérnia na ressonância de um ano depois não separou quem melhorou de quem não melhorou.

Muita gente melhora com a hérnia ainda aparecendo na imagem.

Por que a imagem e a dor nem sempre combinam

O livro A coluna sob carga dá três motivos para a ligação fraca entre o exame e a dor:

  1. Achados de imagem são comuns em pessoas sem dor, como mostram os estudos acima.
  2. Em quase todas as pessoas com dor lombar, não é possível achar uma causa específica num tecido. O sistema nervoso e as crenças sobre a dor têm papel importante quando a dor persiste.
  3. As diferenças de postura entre quem tem e quem não tem dor são pequenas.

O segundo ponto está explicado em Por que a dor nem sempre mostra um dano. O terceiro, em Quem tem dor nas costas tem postura pior?.

E a ressonância também mostra os músculos das costas. O que ela diz sobre eles está em O músculo das costas e a dor: o que a ressonância mostra.

Como ler o seu laudo com mais calma

Algumas ideias, com base nos estudos deste texto:

  • Palavras como "degenerativo" e "abaulamento" descrevem a forma do disco. Elas são muito comuns com a idade, inclusive em quem não tem dor.
  • O laudo é uma peça. Ele não diz, sozinho, de onde vem a dor nem como ela vai evoluir.
  • Ao pesquisar uma palavra do laudo, lembre: ela descreve a forma do tecido na imagem, e não a sua dor.
  • O exame ganha sentido junto com a história da dor e o exame físico, na consulta.

Quem pede o exame e quem trata a dor pode explicar o que aquele laudo quer dizer no seu caso.

O que você leva deste texto

  • Degeneração e abaulamento do disco são achados comuns em pessoas sem dor: a degeneração passa de 37% aos 20 anos para 96% aos 80.
  • Numa amostra de 98 pessoas sem dor, só 36% tinham todos os discos normais.
  • Alguns achados aparecem mais em quem tem dor, mas também existem em quem não tem.
  • Na ciática, a ressonância de um ano depois não separou quem melhorou de quem não melhorou.
  • O laudo sozinho não explica a dor.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Veja também as perguntas frequentes da página principal.

Perguntas frequentes

Achado de 'desgaste' no exame explica a dor?

Esses achados são comuns em pessoas sem dor: a degeneração do disco aparece em 37% aos 20 anos e em 96% aos 80 anos.

Quantas pessoas sem dor têm exame 'normal'?

Numa amostra de 98 pessoas sem dor, só 36% tinham todos os discos normais.

A ressonância diz se eu vou melhorar?

Num estudo com 283 pessoas com ciática, a ressonância de um ano depois não separou quem melhorou de quem não melhorou: 85% com hérnia visível e 83% sem hérnia tiveram bom resultado.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F