Quem tem dor nas costas tem postura pior?
A amiga tira uma foto sua de lado, sem você perceber. Quando você vê, leva um susto: "nossa, como eu estou curvada". Ou alguém da família comenta: "você anda torta". E, se você tem dor nas costas, a ligação parece óbvia. A dor deve vir daí.
Os estudos que compararam a postura de quem tem dor com a de quem não tem mostram um quadro diferente. As diferenças existem, mas são pequenas.
Como esses estudos são feitos
Os pesquisadores medem a postura de dois grupos: pessoas com dor e pessoas sem dor. Depois, comparam as medidas.
Eles medem coisas como:
- a curva lombar, na parte baixa das costas;
- a curva da parte alta das costas;
- a inclinação da bacia;
- a diferença de comprimento entre as pernas;
- a posição da cabeça em relação ao tronco.
Esses estudos olham as pessoas num momento só, como uma foto. Por isso, eles são chamados de transversais. Esse detalhe vai fazer diferença no fim do texto.
Na dor lombar: diferenças pequenas
Uma revisão de 2025 juntou os estudos sobre postura e dor lombar, a dor na parte baixa das costas.
O resultado:
- a inclinação pélvica foi um pouco maior em quem tinha dor lombar;
- a curva lombar, a curva das costas e a diferença entre as pernas não diferiram de forma firme entre os grupos.
Inclinação pélvica é o quanto a bacia está virada para a frente ou para trás.
A diferença na inclinação pélvica teve uma diferença média padronizada de 0,23. Esse número é uma forma de medir o tamanho de uma diferença entre grupos. O livro A coluna sob carga descreve essa diferença como pequena.
Ou seja: a "postura torta" que muita gente imagina como causa da dor lombar não aparece de forma clara nos estudos.
No pescoço: a cabeça um pouco à frente
Na coluna do pescoço, uma revisão de 2023 mediu o ângulo craniovertebral. É um ângulo que mostra o quanto a cabeça está à frente do tronco, visto de lado.
Entre quem tinha e quem não tinha dor no pescoço, esse ângulo diferiu em 2,93 graus. É uma diferença de poucos graus.
Adultos e adolescentes
Outra revisão, de 2019, olhou a anteriorização da cabeça, que é a cabeça projetada para a frente. Ela foi maior em adultos com dor no pescoço. Mas não em adolescentes.
E aqui entra uma palavra importante: confundidor. Confundidor é um terceiro fator que bagunça a comparação.
Nesse caso, a revisão apontou a idade como confundidor: a ligação entre cabeça à frente e dor mudou conforme a idade. Por isso, um resultado de adultos não vale, sem mais, para adolescentes.
Quem veio primeiro: a postura ou a dor?
Lembra que esses estudos são transversais, como uma foto? Uma foto mostra duas coisas juntas. Ela não mostra qual veio primeiro.
O livro A coluna sob carga chama a atenção para isso: a postura pode ser consequência da dor, e não causa.
E a dor muda o movimento. O livro mostra que pessoas com dor lombar têm menor amplitude de movimento na lombar, ou seja, mexem menos essa parte das costas. Na dor, o corpo também redistribui o trabalho entre os músculos para proteger o tecido. Se alguém medir a postura nesse momento, pode ver uma diferença que veio depois da dor. Esse tema está no capítulo 4.6 do livro.
Então a postura não importa?
Importa, mas de outro jeito. O livro A coluna sob carga separa a forma da coluna (como ela é), o jeito de usar o corpo ao longo do dia e a carga que os tecidos recebem. Essa diferença está explicada em Postura não é uma foto: o que é carga, capacidade e por que a coluna se adapta.
A pergunta "corrigir a postura previne a dor?" também tem resposta nos estudos. Ela está em Corrigir a postura previne dor nas costas?.
E, assim como a postura, o exame de imagem também mostra muita coisa que existe em pessoas sem dor. Veja em Seu exame mostra 'desgaste': como ler sem medo.
Na vida real
A foto de lado que a amiga tirou mostra um instante. Ela não mostra como você se mexe ao longo do dia, quanto tempo fica na mesma posição ou o que o seu corpo aguenta.
E o comentário "você anda torta" pode até descrever uma diferença real. Os estudos mostram que diferenças assim, sozinhas, não explicam a dor.
O que você leva deste texto
- As diferenças de postura entre quem tem e quem não tem dor nas costas são pequenas.
- Na dor lombar, só a inclinação da bacia foi um pouco maior. Curva lombar, curva das costas e diferença entre as pernas não diferiram de forma firme.
- A cabeça para a frente é maior em adultos com dor no pescoço, mas não em adolescentes, e a idade confunde a comparação.
- Os estudos são como uma foto. A postura pode ser consequência da dor, e não causa.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
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Perguntas frequentes
A postura de quem tem dor é muito diferente?
As diferenças são pequenas: a inclinação da bacia é um pouco maior na dor lombar; curva lombar e curva das costas não diferiram de forma firme.
E a cabeça para a frente?
É maior em adultos com dor, mas não em adolescentes, e a idade confunde a comparação. A postura pode ser consequência da dor, e não causa.
Fontes
- Sugavanam T, Sannasi R, Anand PA et al. Postural asymmetry in low back pain - a systematic review and meta-analysis of observational studies. Disabil Rehabil. 2025. PMID 39166267; doi:10.1080/09638288.2024.2385070.
- Rani B, Paul A, Chauhan A et al. Is Neck Pain Related to Sagittal Head and Neck Posture?: A Systematic Review and Meta-analysis. Indian J Orthop. 2023. PMID 36825268; doi:10.1007/s43465-023-00820-x.
- Mahmoud NF, Hassan KA, Abdelmajeed SF et al. The Relationship Between Forward Head Posture and Neck Pain: a Systematic Review and Meta-Analysis. Curr Rev Musculoskelet Med. 2019. PMID 31773477; doi:10.1007/s12178-019-09594-y.
- van Dieën JH, Reeves NP, Kawchuk G et al. Motor Control Changes in Low Back Pain: Divergence in Presentations and Mechanisms. J Orthop Sports Phys Ther. 2019. PMID 29895230; doi:10.2519/jospt.2019.7917; Errabity A et al. The effect of low back pain on spine kinematics. Clin Biomech. 2023. PMID 37595368; Hodges PW. Pain and motor control. J Electromyogr Kinesiol. 2011. PMID 21306915 (citados no cap. 4.6 do livro).
- No livro A coluna sob carga: cap. 4.6, p. 16; cap. 7.1, p. 23.

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F