Matheus Camargo WhatsApp

Corrigir a postura previne dor nas costas?

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 11 min

"Fica reta!" Muita gente ouviu isso a vida toda, em casa, na escola, no trabalho. Hoje, há corretores posturais à venda, e muita gente compra um pensando na dor nas costas. A ideia parece óbvia: se a postura está errada, é só corrigir.

Mas o que os estudos mostram? Este texto adapta o capítulo 8 do livro A coluna sob carga, que pergunta se a postura previne dor. E parte da tese do primeiro capítulo. A resposta é mais interessante do que um sim ou um não.

De onde vem a ideia

O livro começa reconhecendo o tamanho dessa ideia. "Má postura causa dor nas costas" e "corrigir a postura previne a dor" estão entre as frases mais repetidas sobre dor nos músculos, ossos e articulações.

Essas frases sustentam programas de ergonomia no trabalho, aulas de postura nas escolas e boa parte dos exercícios ditos corretivos.

A justificativa principal é uma cadeia de raciocínio que parece fazer sentido:

  1. a posição muda a carga sobre a coluna;
  2. a carga muda o tecido, como o disco e o músculo;
  3. então, a posição deveria mudar a dor.

O livro examina essa cadeia elo por elo. E descobre que os elos não têm a mesma força.

"Postura" não é uma coisa só

Antes de responder, o livro separa o que costuma vir misturado na palavra "postura":

  • a forma, ou alinhamento: a posição das partes do corpo numa postura parada, como numa foto;
  • o comportamento postural: quanto tempo a pessoa fica em cada posição e quanto ela varia;
  • a carga: o peso, quantas vezes, por quanto tempo, em que direção e com que rapidez.

Quando alguém diz "fica reta!", está falando da forma. Mas a forma é só uma parte da história. Esse jeito de pensar a postura está em Postura não é uma foto: o que é carga, capacidade e por que a coluna se adapta.

A tese em uma frase

O livro resume tudo numa frase. A evidência é forte para o elo "postura → carga → função do tecido". E é fraca e variável para o elo "função do tecido → dor".

Em palavras simples: está bem demonstrado que a posição muda a carga e que a carga muda o tecido. O que não está demonstrado é que essa mudança no tecido vire dor de forma direta.

A pergunta que dá para testar

O livro também mostra que "corrigir a postura previne a dor" é uma frase difícil de testar. Por isso, reformula a pergunta de um jeito que um estudo consiga responder.

Em pessoas sem dor, mudar uma exposição física reduz o número de pessoas que têm uma crise de dor nas costas ou no pescoço, com incapacidade, em 12 meses ou mais? A exposição pode ser o alinhamento, a variação de posição ou a carga.

Há duas perguntas diferentes aqui. Prevenção primária é evitar a primeira crise. Prevenção secundária é evitar que a dor volte, o que se chama recorrência.

Primeira parte: a postura causa dor?

Para responder, o livro olha uma revisão de 2020 que juntou 41 revisões sistemáticas. Revisão sistemática é um estudo que reúne, com método, tudo o que já foi publicado sobre uma pergunta.

A conclusão: não houve consenso sobre causa. Há associações entre postura, exposição física e dor lombar, mas não uma explicação de causa. A certeza é baixa.

Outros dois achados vão na mesma direção:

  • numa revisão sobre levantar peso no trabalho, nenhum estudo cumpriu mais de dois critérios de Bradford-Hill. É uma lista que os cientistas usam para julgar se algo causa outra coisa. Para o livro, isso torna improvável que levantar peso, sozinho, cause dor lombar;
  • fazer mais flexão da coluna lombar ao levantar um peso, ou seja, curvar as costas, não foi fator de risco para dor lombar.

As diferenças de postura são pequenas

Quem tem dor nas costas tem postura pior? Os estudos mostram que as diferenças de postura parada entre quem tem e quem não tem dor são pequenas e inconsistentes. E esses estudos olham as pessoas num momento só, por isso a postura pode ser consequência da dor, e não causa. Os números estão em Quem tem dor nas costas tem postura pior?.

Segunda parte: corrigir a postura previne a primeira crise?

Aqui está o centro do texto. O livro procurou um ensaio clínico que testasse corrigir o alinhamento visível em pessoas sem dor, medindo depois quem teve dor. Ensaio clínico é um estudo que testa uma intervenção comparando grupos.

Não encontrou nenhum.

Isso é importante. Não quer dizer que se provou que corrigir a postura não funciona. Quer dizer que o livro não encontrou um teste disso. O livro chama essa falta de lacuna: é uma hipótese que ainda não tem teste.

O ensaio mais próximo testou outra coisa

O ensaio mais próximo que o livro encontrou não corrigiu a postura. Ele testou variar a posição.

Foram 193 trabalhadores de escritório sem dor recente, mas com alto risco de ter dor. Um grupo recebeu avisos para mudar de posição sentada. Nesse grupo, o risco de uma dor lombar nova foi menor (HR ajustado 0,19; IC 95% 0,06 a 0,66).

HR é um número que compara o risco ao longo do tempo entre dois grupos. HR 1 quer dizer "sem diferença". Abaixo de 1, o risco foi menor no grupo que recebeu a intervenção.

Mas o livro aponta os limites. O ensaio é pequeno, acompanhou as pessoas por 6 meses e não mediu se elas seguiram os avisos. E ele não testa a correção do alinhamento.

E as outras medidas de exposição?

Outras medidas que mexem na exposição também foram estudadas. A educação sozinha, as cintas, as palmilhas e o treino de "como levantar" não preveniram dor lombar. Esse assunto está em O que ajuda a prevenir dor nas costas (e o que não ajuda).

Terceira parte: o que tem prova de prevenir

Se corrigir a forma não tem teste, o que tem? O livro mostra que aumentar a capacidade e a atividade tem demonstração preventiva moderada.

O exercício combinado com educação reduziu o risco de uma crise de dor lombar, com certeza moderada. Educação, aqui, quer dizer aulas e conversas sobre como a dor e a coluna funcionam.

E um ensaio mostrou que caminhada progressiva com educação reduziu a recorrência da dor lombar. Os detalhes desses estudos estão no texto sobre prevenção indicado acima.

O ensaio SPINE CARE: terapia postural para quem já tem dor

Há um ensaio grande que testou terapia postural individualizada. Ele se chama SPINE CARE e foi publicado em 2022.

Atenção a um detalhe: não é um estudo de prevenção. Ele incluiu 2.971 pessoas que já tinham dor no pescoço ou na lombar, aguda ou subaguda, ou seja, dor recente.

O resultado foi medido pelo ODI, um questionário de 0 a 100 que mede o quanto a dor atrapalha a vida. Quanto menor, melhor.

O próprio ensaio fixou um valor mínimo de 6 pontos. É a menor diferença que os pesquisadores consideraram importante para a vida da pessoa. O nome técnico é diferença mínima clinicamente importante.

O que o ensaio encontrou, em comparação com o cuidado usual:

  • a terapia postural reduziu o ODI em 4,3 pontos aos 3 meses. Ficou abaixo do mínimo de 6;
  • a terapia postural aumentou o gasto com a coluna em US$ 941 por ano;
  • uma intervenção biopsicossocial, que considera também fatores psicológicos e sociais, reduziu o ODI em 5,8 pontos (IC 95% 3,9 a 7,7). Também ficou abaixo do mínimo de 6, mas não aumentou o gasto.

Para os autores do livro, a certeza desse resultado é moderada, por ser um ensaio grande, mas um só.

O que a ciência afirma e o que não afirma

O livro fecha o capítulo com quatro conclusões. Elas ajudam a separar o que está demonstrado do que não está.

  1. Corrigir a forma postural não tem demonstração de prevenir dor. Não há ensaio que teste isso em pessoas sem dor.
  2. Aumentar a capacidade e a atividade tem demonstração preventiva moderada. O exercício com educação reduz o risco de uma crise de dor lombar, e a caminhada com educação reduz a recorrência.
  3. Ficar muito tempo na mesma exposição parece pesar na recorrência. Sentar mais de 5 horas por dia e posturas desconfortáveis frequentes ajudaram a prever a volta da dor. É uma ligação de previsão, e não de causa.
  4. Uma formulação defensável hoje, no juízo dos autores: variar a postura e manter a carga dentro da capacidade, com a capacidade crescendo aos poucos.

O livro também é honesto sobre um limite. Nenhum ensaio comparou diretamente "corrigir a forma" com "variar a postura e aumentar a capacidade".

E o corretor postural?

Os estudos citados neste texto não testaram corretores posturais. O que o livro mostra é que a ideia por trás deles, corrigir o alinhamento para prevenir dor, ainda não tem um ensaio que a teste.

O mesmo vale para o "fica reta!". Não há prova de que endireitar a postura previna dor nas costas em quem não tem dor.

O que você leva deste texto

  • O livro não encontrou nenhum ensaio que testasse corrigir o alinhamento em pessoas sem dor, com a dor como resultado.
  • Uma revisão de 41 revisões não achou consenso sobre causa entre postura e dor lombar. Há associações, mas não explicação causal.
  • Na terapia postural para quem já tinha dor, a melhora ficou abaixo do mínimo considerado importante, e o gasto aumentou.
  • O que tem mais prova é aumentar a capacidade: exercício com educação, com certeza moderada.
  • Uma formulação defensável hoje é variar a postura e manter a carga dentro da capacidade, com a capacidade crescendo aos poucos.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Para conhecer o atendimento, veja a página principal.

Perguntas frequentes

Corrigir a postura previne dor?

O livro não encontrou nenhum ensaio que testasse corrigir o alinhamento em pessoas sem dor, com a dor como resultado.

Postura e dor têm relação de causa?

Uma revisão de 41 revisões não achou consenso sobre causa: há associações, mas não explicação causal.

E terapia postural para quem já tem dor?

No ensaio SPINE CARE, com 2.971 pessoas, ela reduziu a incapacidade 4,3 pontos, abaixo do mínimo considerado importante (6), e aumentou o gasto.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F