O músculo das costas e a dor: o que a ressonância mostra
Você abre o laudo da ressonância e lê "atrofia do multífido" ou "infiltração gordurosa da musculatura paravertebral". A palavra atrofia assusta. Parece que o músculo está "acabando".
Este texto explica o que essas palavras querem dizer, o que os estudos encontraram sobre os músculos das costas em pessoas com dor lombar e, principalmente, o que o laudo não consegue dizer sozinho.
Os termos do laudo, em palavras simples
Multífido são pequenos músculos colados à coluna, de vértebra em vértebra. Eles ficam bem junto do osso, na parte de trás da coluna.
Músculos paraespinais (ou paravertebrais) são os músculos que ficam ao lado da coluna. O multífido é um deles. O eretor da espinha é outro. O psoas é um músculo da frente da coluna lombar, também medido nesses estudos.
Atrofia é quando o músculo fica menor. Na ressonância, isso aparece como uma área menor do músculo.
Infiltração gordurosa é a gordura que aparece misturada dentro do músculo na imagem. Não é o mesmo que o peso do corpo. É uma característica do tecido do músculo vista no exame.
O músculo é o tecido que responde mais rápido
O livro A coluna sob carga mostra que, entre os tecidos da coluna, o músculo paraespinal é o que responde mais rápido quando a carga é retirada. Isso aparece nos estudos de repouso prolongado e de astronautas, contados no texto ficar parado enfraquece.
Se o músculo responde rápido à falta de uso, faz sentido perguntar: ele também muda em quem tem dor nas costas?
O tamanho do músculo e a dor
Uma revisão de 2017 reuniu estudos sobre o tamanho e a composição dos músculos paraespinais em pessoas com dor lombar. Ela encontrou que uma área menor do multífido se associa à dor. Nos homens, essa área menor previu a dor por até 12 meses.
Depois, uma coorte acompanhou 962 pessoas com dor lombar. Coorte é um grupo de pessoas acompanhado ao longo do tempo. O resultado foi interessante: a área dos músculos paraespinais previu a incapacidade em 12 meses, ou seja, o quanto a dor atrapalhava a vida. Mas não previu a intensidade da dor.
Em outras palavras, o tamanho do músculo pareceu ter mais a ver com o quanto a pessoa conseguia fazer do que com o quanto doía.
Uma revisão com metanálise de 2022, com 25 estudos, encontrou que a área total do multífido era um pouco menor em pessoas com dor lombar. A diferença foi pequena e incerta: o resultado incluía a possibilidade de não haver diferença. Para o eretor da espinha e o psoas, não houve diferença. Os estudos eram de observação e de qualidade variada.
A gordura dentro do músculo e a dor
Sobre a infiltração gordurosa, a revisão de 2017 achou evidência conflitante: estudos que apontavam em direções diferentes.
Depois, duas metanálises reuniram mais estudos. Metanálise é um método que junta os números de vários estudos para chegar a um resultado médio.
- A de 2022, com 25 estudos, encontrou mais gordura no multífido, com efeito de tamanho médio, associado à dor lombar.
- A de 2025, com 17 estudos, comparou pessoas com e sem dor lombar. Achou mais gordura no multífido e um pouco mais no eretor da espinha, mas não no psoas.
O ponto mais importante vem a seguir: essas comparações não mostram se a gordura vem antes ou depois da dor. Pode ser que a gordura contribua para a dor. Pode ser o contrário. Os estudos não conseguem separar uma coisa da outra.
A gordura some com exercício?
Uma revisão de 2023 olhou estudos de exercício em pessoas com dor lombar. Ela achou evidência de certeza moderada de que a infiltração gordurosa paraespinal não se reverte com exercício.
Esse achado fala da gordura vista na imagem, não de tudo o que o exercício pode mudar. Quer dizer apenas que esperar que a imagem do músculo "volte a ser como antes" pode não ser o melhor jeito de medir progresso.
E o músculo volta ao normal quando a dor passa?
Um estudo de 1996 acompanhou 39 pessoas na primeira crise aguda de dor lombar. Foi um ECR, ou seja, um estudo em que as pessoas são sorteadas para cada grupo.
- Um grupo recebeu só o tratamento médico. Nesse grupo, o multífido não se recuperou sozinho quando a dor acabou. Ao fim do período avaliado, o músculo ainda estava menor.
- O outro grupo recebeu, além do tratamento médico, exercício específico e localizado para esse músculo. Nesse grupo, a recuperação do músculo foi mais rápida e mais completa.
As outras medidas avaliadas foram parecidas entre os grupos na avaliação de 4 semanas.
É um estudo pequeno, com 39 pessoas na primeira crise. Mas ele traz uma ideia útil: a dor ir embora não garante, sozinha, que o músculo volte ao que era.
Então, o que o laudo diz e o que não diz
Voltando ao laudo que assustou. Ele descreve como o músculo aparece na imagem naquele dia. É uma informação real.
O que ele não diz sozinho:
- se aquela mudança veio antes ou depois da dor;
- quanto vai doer;
- o que você consegue ou não fazer no dia a dia.
Muitas alterações vistas na ressonância aparecem também em pessoas sem dor. O texto seu exame mostra "desgaste": como ler sem medo conta o que os estudos mostram sobre isso.
O laudo é uma peça do quebra-cabeça, não o quebra-cabeça inteiro.
O músculo e o jeito de se mexer
Os músculos das costas não trabalham sozinhos. O cérebro organiza quais músculos entram em ação e quando. Quando dói, essa organização muda. O texto por que a gente se mexe diferente quando dói explica essa mudança e por que ela varia de pessoa para pessoa.
O que você leva deste texto
- "Atrofia" no laudo quer dizer área menor do músculo na imagem. "Infiltração gordurosa" é gordura dentro do músculo, não o peso do corpo.
- A área dos músculos das costas previu a incapacidade em 12 meses, mas não a intensidade da dor.
- Há mais gordura no multífido em pessoas com dor lombar, mas os estudos não mostram se ela vem antes ou depois da dor.
- Num estudo pequeno, o multífido não voltou sozinho quando a dor passou; com exercício específico, voltou mais rápido.
- O laudo descreve a imagem. A avaliação junta a imagem com o resto.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.
Perguntas frequentes
O tamanho do músculo das costas tem a ver com a dor?
Numa coorte de 962 pessoas, a área desses músculos previu a incapacidade em 12 meses, mas não a intensidade da dor.
A gordura dentro do músculo some com exercício?
Uma revisão achou evidência de certeza moderada de que essa gordura não se reverte com exercício em pessoas com dor lombar. Os estudos não mostram se ela vem antes ou depois da dor.
O músculo volta ao normal quando a dor passa?
Num estudo com pessoas na primeira crise, o multífido não se recuperou sozinho quando a dor acabou. Com exercício específico, a recuperação foi mais rápida. É um estudo pequeno.
Fontes
- Hides et al. Multifidus muscle recovery is not automatic after resolution of acute, first-episode low back pain. Spine. 1996. PMID 8979323; doi:10.1097/00007632-199612010-00011
- Seyedhoseinpoor et al. Alteration of lumbar muscle morphology and composition in relation to low back pain: a systematic review and meta-analysis. Spine J. 2022. PMID 34718177; doi:10.1016/j.spinee.2021.10.018
- Ranger TA, Cicuttini FM, Jensen TS et al. Are the size and composition of the paraspinal muscles associated with low back pain? A systematic review. Spine J. 2017. PMID 28756299; doi:10.1016/j.spinee.2017.07.002
- Ranger TA, Cicuttini FM, Jensen TS et al. Paraspinal muscle cross-sectional area predicts low back disability but not pain intensity. Spine J. 2019. PMID 30529786; doi:10.1016/j.spinee.2018.12.004
- Li Y, Zhang X, Xu X et al. The Morphology and Composition of Paravertebral Muscles Evaluated by MRI Technology are Used to Predict Low Back Pain: A Systematic Review and Meta-analysis. Acad Radiol. 2025. PMID 40348711; doi:10.1016/j.acra.2025.04.026
- Wesselink EO, Pool JJM, Mollema J et al. Is fatty infiltration in paraspinal muscles reversible with exercise in people with low back pain? A systematic review. Eur Spine J. 2023. PMID 36459201; doi:10.1007/s00586-022-07471-w
- No livro A coluna sob carga: cap. 4.4, p. 15

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F