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Ficar parado enfraquece: o que o repouso na cama e o espaço ensinam

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 7 min

Numa crise de dor nas costas, a vontade é passar o fim de semana de cama. Parece lógico: se dói, é melhor não mexer. Mas o que acontece com a coluna quando ela fica muito tempo sem carga?

Para responder, a ciência tem dois tipos de "laboratório" curiosos: pessoas saudáveis que passaram semanas deitadas de propósito, e astronautas que passaram meses no espaço. Este texto conta o que eles mostraram.

Três termos para começar

Atrofia é quando o músculo diminui por falta de uso.

Microgravidade é a condição de quase sem peso, como no espaço. Lá, a coluna praticamente não recebe a carga do peso do próprio corpo.

Experimento natural é uma situação real em que a carga muda sem o pesquisador provocar. Uma viagem ao espaço é um exemplo: os pesquisadores não mandaram os astronautas para lá para estudar a coluna, mas aproveitam para medir o que acontece.

60 dias deitado: o que muda

Num estudo feito em Berlim, voluntários saudáveis ficaram 60 dias em repouso na cama, com a cabeça um pouco inclinada para baixo.

Ao fim do período, os pesquisadores viram:

  • aumento do volume dos discos e do comprimento da coluna;
  • perda da curva lombar na parte mais baixa da coluna;
  • atrofia dos músculos das costas, mais intensa no multífido, entre a quarta e a quinta vértebras lombares.

O multífido são pequenos músculos colados à coluna, de vértebra em vértebra. E um detalhe chamou atenção: quem teve dor lombar depois do repouso foi quem perdeu mais multífido.

21 dias deitado: as mudanças voltam?

Outro estudo acompanhou pessoas depois de 21 dias de repouso na cama. O músculo se recuperou. Mas as mudanças no disco ainda não tinham voltado ao valor inicial 153 dias depois, ou seja, cerca de 5 meses mais tarde.

O disco, portanto, demorou mais do que o músculo para voltar.

Seis meses no espaço

Na Estação Espacial Internacional, a coluna dos astronautas passa meses quase sem carga. Um estudo mediu a coluna antes e depois de missões de cerca de 6 meses.

  • A fração magra dos músculos das costas, ou seja, a parte do músculo que é músculo de fato, sem a gordura misturada, caiu de 86% para 72%.
  • Cerca de 6 semanas depois da volta, 68% dessa perda já tinham se recuperado.
  • A altura do disco não mudou de forma apreciável.

Na introdução do estudo, os autores relatam um dado que chama atenção: astronautas da NASA têm risco 4,3 vezes maior de hérnia de disco do que a população geral e do que aviadores militares, sobretudo no primeiro ano depois da missão.

Hérnia e músculo nos astronautas

Num grupo de 12 astronautas, metade desenvolveu sintomas depois da missão, com uma hérnia nova ou que antes não dava sintomas. Hérnia, aqui, quer dizer que parte do disco avançou para fora do lugar habitual.

Nesses astronautas, a hérnia se associou a duas coisas:

  • pior qualidade do multífido (6,2% pior entre L4 e L5 e 7,0% pior entre L5 e S1, os dois últimos níveis da coluna lombar);
  • menor mobilidade de cada segmento da coluna.

Uma revisão sistemática juntou estudos sobre dor nas costas em astronautas: 77% relataram dor durante o voo, 47% dor aguda depois da volta e 33% dor crônica.

O que esses experimentos ensinam

O livro A coluna sob carga resume assim: retirar a carga é um estímulo forte, e negativo. Músculo e disco mudam em semanas, e parte das mudanças persiste por meses.

O livro classifica a parte da função, ou seja, a atrofia do músculo e a mudança do disco, como documentada. A ligação com a dor e a hérnia depois é classificada como plausível: aparece nos dados, mas vem de grupos pequenos, de 6 a 12 pessoas, e de uma revisão sistemática.

Na tabela de implicações práticas, o livro coloca o repouso prolongado do lado do que se deve reduzir ou evitar. A base citada é justamente esta: o desuso atrofia o músculo e altera o disco. Do lado do que vale a pena, aparece a atividade física regular e progressiva, incluindo a caminhada.

Uma ressalva importante

Os voluntários dos estudos de repouso eram pessoas saudáveis. E os astronautas também. Esses estudos não testaram o repouso como tratamento para uma crise de dor nas costas. Eles mostram o que acontece com a coluna quando a carga some por muito tempo.

Então, o que dá para dizer é isto: ficar muitas semanas sem carga enfraquece os músculos das costas e muda o disco, e parte disso demora a voltar.

E o fim de semana de cama na crise?

Os estudos acima falam de semanas e meses sem carga, não de um dia mais calmo.

A mensagem que sai desses experimentos é que o repouso prolongado não protege a coluna. Por isso, o livro aponta a atividade física regular e progressiva como o caminho, e não o repouso longo. Para a crise, as diretrizes de alta qualidade recomendam manter as atividades do dia a dia, como mostra o texto Dor lombar aguda: como ela costuma evoluir. Quanto e como se mexer, cada caso decide na avaliação.

O texto como a dor lombar aguda costuma evoluir mostra o que costuma acontecer nas semanas depois de uma crise. E o texto caminhar ajuda a dor nas costas a não voltar? conta um estudo sobre caminhada e recaída.

Para entender o que a ressonância mostra sobre o multífido em pessoas com dor, leia o músculo das costas e a dor.

O que você leva deste texto

  • Em 60 dias de repouso na cama, os músculos das costas atrofiaram, sobretudo o multífido.
  • Depois de 21 dias de repouso, o músculo voltou, mas o disco ainda não tinha voltado 153 dias depois.
  • Em astronautas, a parte magra dos músculos das costas caiu de 86% para 72% em cerca de 6 meses; 68% dessa perda voltou em cerca de 6 semanas.
  • Os estudos foram feitos com pessoas saudáveis e não testaram o repouso como tratamento.
  • O livro coloca o repouso prolongado do lado do que se deve evitar e a atividade regular e progressiva do lado do que vale a pena.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.

Perguntas frequentes

O repouso prolongado protege a coluna?

Os experimentos citados sugerem que não. Em 60 dias de repouso na cama, os músculos das costas atrofiaram, sobretudo o multífido. Eles foram feitos com voluntários saudáveis e não testaram o repouso como tratamento numa crise.

As mudanças voltam ao normal?

Depois de 21 dias de repouso, o músculo se recuperou, mas o disco ainda não tinha voltado ao valor inicial 153 dias depois.

O que acontece com astronautas?

Após cerca de 6 meses no espaço, a parte magra dos músculos das costas caiu de 86% para 72%; 68% dessa perda voltou em cerca de 6 semanas.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F