Caminhar ajuda a dor nas costas a não voltar?
A crise passou. A dor nas costas foi embora. E agora fica o medo de ela voltar. Muita gente se pergunta se uma caminhada no fim da tarde, ou ir a pé à feira, ajuda ou atrapalha.
Dois estudos recentes trazem respostas sobre caminhada e dor lombar. Um é um ensaio clínico. O outro acompanhou milhares de pessoas por alguns anos. Este texto explica o que cada um mostrou e quanto se pode confiar neles.
Por que a pergunta é sobre a dor voltar
A dor lombar costuma voltar depois de uma crise. Isso se chama recorrência. O que os estudos mostram sobre isso está em Por que a dor nas costas volta? O que prevê a recaída.
Por isso, evitar que a dor volte é uma pergunta importante. E é diferente de evitar a primeira crise.
O ensaio WalkBack
Um ensaio clínico feito na Austrália e publicado em 2024 testou uma caminhada progressiva, ou seja, que aumenta aos poucos, junto com educação. Ensaio clínico é um estudo que testa uma intervenção comparando grupos. Educação, aqui, quer dizer conversas sobre como a dor e a coluna funcionam.
O ensaio se chama WalkBack. Ele incluiu 701 pessoas, e o objetivo era evitar a volta da dor lombar. A caminhada era individualizada, ou seja, ajustada para cada pessoa.
O que o ensaio encontrou
A caminhada progressiva com educação reduziu a recorrência da dor lombar: HR 0,72.
HR é um número que compara o risco ao longo do tempo entre dois grupos. HR 1 quer dizer "sem diferença". Abaixo de 1, o risco foi menor no grupo que caminhou.
No meio do grupo (mediana), a dor levou 208 dias para voltar com a caminhada e 112 dias no grupo sem tratamento. Ou seja, no grupo da caminhada, a dor demorou mais para voltar. O grupo da caminhada teve mais queixas nas pernas (100 contra 54 eventos).
Quanto se pode confiar
Para os autores do livro, a certeza é moderada. É um ensaio, um só. Um resultado confirmado por vários ensaios daria mais segurança.
A coorte norueguesa: caminhar mais, menos dor crônica
O segundo estudo é de outro tipo. É uma coorte, ou seja, um estudo que acompanha um grupo de pessoas ao longo do tempo, sem dar a elas um tratamento.
Foram 11.194 adultos na Noruega. A caminhada foi medida por acelerômetro, um pequeno aparelho que mede o movimento. Isso é importante: a medida vem do aparelho, e não só do que as pessoas contam.
O resultado: quem caminhava mais teve menos dor lombar crônica em cerca de 4 anos. Dor crônica, nesse estudo, é a dor que dura 3 meses ou mais.
Associação, não causa
Aqui vale um cuidado. Uma coorte mostra associação, e não causa. Ou seja, as duas coisas apareceram juntas, mas o estudo não prova que caminhar evitou a dor.
Pode haver outras explicações. Por exemplo, quem caminha mais pode ter outros hábitos diferentes, ou já sentir menos dor no começo.
O livro A coluna sob carga cita esse estudo como um avanço. Antes, faltavam estudos que medissem o movimento por aparelho, e não só pelo que as pessoas contavam.
O que o livro conclui sobre a caminhada
O livro junta os dois estudos numa mensagem simples, com certezas diferentes:
- o ensaio WalkBack mostra que caminhada progressiva com educação reduziu a recorrência, com certeza moderada;
- a coorte norueguesa mostra uma associação entre caminhar mais e ter menos dor lombar crônica.
Na tabela do que fazer por nível de ação, o livro coloca para cada pessoa a atividade física regular e progressiva, incluindo a caminhada. E variar a posição ao longo do dia.
A caminhada entre outras formas de prevenir
A caminhada não é a única opção estudada. O exercício combinado com educação reduziu o risco de uma crise de dor lombar, com certeza moderada. O que ajuda e o que não ajuda a prevenir está em O que ajuda a prevenir dor nas costas (e o que não ajuda).
E caminhar é uma forma de usar os músculos, ao contrário de ficar muito tempo parada. Esse tema está em O problema não é ficar parada: é ficar parada sem usar o músculo.
E na prática?
O ensaio testou uma caminhada que aumentava aos poucos e era ajustada para cada pessoa, junto com educação. Ele não testou uma caminhada qualquer, sem orientação.
Este texto é uma explicação geral, e não uma prescrição. Como começar, quanto andar e como aumentar são escolhas que dependem de cada pessoa.
O que você leva deste texto
- Num ensaio com 701 pessoas, caminhada progressiva com educação reduziu a volta da dor lombar (HR 0,72), com certeza moderada.
- No grupo da caminhada, a dor demorou mais para voltar: 208 contra 112 dias (mediana), segundo o estudo.
- Numa coorte de 11.194 adultos, mais caminhada medida por aparelho associou-se a menos dor lombar crônica. É associação, não prova de causa.
- A caminhada do ensaio era progressiva e ajustada para cada pessoa.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
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Perguntas frequentes
Caminhar ajuda a dor a não voltar?
Num ensaio com 701 pessoas, caminhada progressiva com educação reduziu a recorrência (HR 0,72). No meio do grupo (mediana), a dor levou 208 dias para voltar com a caminhada e 112 dias no grupo sem tratamento.
Caminhar mais tem relação com menos dor crônica?
Numa coorte de 11.194 adultos, mais caminhada medida por aparelho associou-se a menos dor lombar crônica em cerca de 4 anos. É associação, não prova de causa.
Fontes
- Pocovi NC, Lin CC, French SD et al. Effectiveness and cost-effectiveness of an individualised, progressive walking and education intervention for the prevention of low back pain recurrence in Australia (WalkBack): a randomised controlled trial. Lancet. 2024. PMID 38908392; doi:10.1016/S0140-6736(24)00755-4.
- Haddadj R, Nordstoga AL, Nilsen TIL et al. Volume and Intensity of Walking and Risk of Chronic Low Back Pain. JAMA Netw Open. 2025. PMID 40512494; doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.15592.
- No livro A coluna sob carga: cap. 8.1, p. 26; cap. 9.4, p. 30.

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F