Crianças, telas e dor nas costas: o que os pais podem saber
O filho chega da escola, larga a mochila no canto e passa a tarde no computador. À noite, é a vez do videogame. Um dia ele reclama: "minhas costas doem". A pergunta que vem na hora é: foi a tela?
Este texto mostra o que dois estudos grandes dizem sobre crianças, telas e dor nas costas. E também o que eles ainda não conseguem dizer.
Criança também tem dor nas costas
Dor nas costas não é só coisa de adulto. Os estudos sobre crianças e adolescentes existem justamente porque a queixa aparece cedo.
No mundo, a dor lombar é a principal causa de anos vividos com alguma limitação. Esse tamanho do problema está explicado em Dor nas costas é a maior causa de incapacidade no mundo. Por isso, entender o que acontece na infância interessa a muita gente.
O que um estudo com 57.831 crianças e adolescentes mostrou
Em 2023, um grupo de pesquisadores fez uma metanálise. Metanálise é um estudo que soma os resultados de vários estudos, para ter um número mais firme do que cada um daria sozinho.
Ao todo, os estudos somados tinham 57.831 crianças e adolescentes. A pergunta era se o tempo de tela por dia tinha relação com dor lombar, a dor na parte baixa das costas.
O resultado: cada hora diária de computador associou-se a 8,2% a mais de risco de dor lombar.
O que quer dizer "dose-resposta"
Os autores falam em relação de dose-resposta. Dose-resposta quer dizer: quanto mais da exposição, mais do efeito. Aqui, a exposição é o tempo de tela, e o efeito é o risco de dor.
Pense num remédio. Uma dose maior costuma ter um efeito maior. Com a tela, o raciocínio é parecido: mais horas por dia andaram junto com mais risco de dor lombar.
Como ler o "8,2% a mais"
Esse número compara grupos. Uma criança que passa uma hora a mais por dia no computador entra num grupo com risco 8,2% maior que o de quem passa uma hora a menos.
Isso não quer dizer que 8 em cada 100 crianças vão ter dor por causa da tela. Também não quer dizer que a sua criança vai ter dor. É um número sobre grupos grandes, e não uma previsão para uma pessoa.
Associação não é causa
Os estudos mostram que tempo de tela e dor lombar aparecem juntos. Eles não provam que a tela causa a dor.
Há outras explicações possíveis. Uma criança que já sente dor pode brincar menos na rua e ficar mais no computador. Ou outros hábitos podem vir junto com mais horas de tela. Para provar causa, seria preciso outro tipo de estudo.
No livro A coluna sob carga, as telas aparecem na tabela das exposições do século XXI. Nessa linha, a certeza das associações é baixa. Certeza baixa quer dizer que novos estudos ainda podem mudar bastante o que se sabe.
E o celular no pescoço?
Muita gente pensa logo na cabeça baixa sobre o celular. Nos adultos, o ângulo da cabeça ao usar o celular não se associou à dor no pescoço em dois estudos. O que se associou foi o uso excessivo, ou seja, o tempo e o padrão de uso.
Essa história está contada em Pescoço de celular: o ângulo ou o tempo?. A ideia que se repete é a mesma: o tempo parece pesar mais que a posição exata da cabeça.
E as aulas de postura na escola?
Existem programas escolares de "cuidado com as costas" para crianças e adolescentes.
Uma revisão de 2022 juntou os estudos sobre esses programas. O resultado foi bom em vários pontos. Os programas melhoraram:
- o comportamento (o que a criança faz no dia a dia);
- o conhecimento sobre as costas;
- a resistência muscular;
- a postura.
A certeza desses resultados vai de muito baixa a moderada, conforme o ponto medido.
O que a revisão não mostrou
Aqui está a parte importante. A revisão não somou a dor como resultado. E não há dados de acompanhamento dessas crianças até a vida adulta.
Ou seja: sabemos que a criança aprende e muda o jeito de fazer as coisas. Não sabemos se isso evita dor nas costas quando ela crescer. O livro A coluna sob carga põe esse ponto na lista do que a pesquisa ainda precisa responder: acompanhar os programas escolares por muitos anos, com a dor na vida adulta como resultado.
Por isso, o livro sugere não prometer que a postura aprendida na escola previne dor adulta. Não há dados de seguimento dessas crianças até a vida adulta.
O que o livro sugere para a escola
No capítulo sobre recursos, o livro organiza o que tem mais base para cada lugar da vida. Para a escola, ele sugere investir em:
- atividade física;
- conhecimento sobre o corpo;
- limitar o tempo de tela.
A base para isso é a melhora de comportamento e conhecimento nos programas escolares e a relação de dose-resposta com o tempo de computador. É uma sugestão geral para escolas, e não uma receita para uma criança.
Na prática, em casa
Tudo o que foi dito acima vem de estudos com grupos grandes. Em casa, a conversa é sobre uma criança, com a rotina dela.
Algumas cenas comuns ajudam a pensar:
- a lição feita no celular, deitada no sofá, por horas seguidas;
- o videogame à noite, que entra pelo horário de dormir;
- a tarde inteira no computador, sem sair para brincar.
O estudo não diz qual dessas cenas é "pior". Ele mostra que mais horas de tela por dia andaram junto com mais risco de dor lombar. O livro sugere, para a escola, atividade física, conhecimento sobre o corpo e menos tempo de tela.
Quando uma criança tem dor que preocupa, a conversa é com o pediatra ou com um profissional de saúde, que avalia aquela criança.
O que você leva deste texto
- Mais horas de tela por dia associaram-se a mais risco de dor lombar em crianças e adolescentes: 8,2% a mais por hora diária de computador.
- Associação não é causa. O estudo não prova que a tela provoca a dor.
- Aulas de postura na escola melhoram conhecimento, comportamento e postura. Não há dados de que previnam dor na vida adulta.
- O livro sugere, para a escola, atividade física, conhecimento sobre o corpo e menos tempo de tela.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
Para adultos, o que tem prova na prevenção está em O que ajuda a prevenir dor nas costas (e o que não ajuda). Para conhecer o atendimento, veja a página principal.
Perguntas frequentes
Tempo de tela tem a ver com dor nas costas das crianças?
Numa análise de 57.831 crianças e adolescentes, cada hora diária de computador associou-se a 8,2% a mais de risco de dor lombar. É uma associação: as duas coisas aparecem juntas, mas isso não prova que a tela causa a dor.
Aula de postura na escola previne dor adulta?
Os programas escolares melhoram comportamento, conhecimento e postura, mas não há dados de que previnam dor na vida adulta. A revisão não somou a dor como resultado e não acompanhou as crianças até a idade adulta.
Fontes
- Yue C, Wenyao G, Xudong Y et al. Dose-response relationship between daily screen time and the risk of low back pain among children and adolescents: a meta-analysis of 57831 participants. Environ Health Prev Med. 2023. PMID 37899211; doi:10.1265/ehpm.23-00177.
- García-Moreno JM, Calvo-Muñoz I, Gómez-Conesa A et al. Effectiveness of physiotherapy interventions for back care and the prevention of non-specific low back pain in children and adolescents: a systematic review and meta-analysis. BMC Musculoskelet Disord. 2022. PMID 35366847; doi:10.1186/s12891-022-05270-4.
- No livro A coluna sob carga: cap. 6.2, p. 21; cap. 8.3, p. 26; cap. 9.1, p. 28 (linha 'Escola'); cap. 9.4, p. 29.

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F