Dor nas costas é a maior causa de incapacidade no mundo
No café do trabalho, alguém comenta que as costas estão doendo. Outra colega diz que a dela também. Um terceiro conta que já teve uma crise no ano passado. Parece que todo mundo tem dor nas costas.
E, de certo modo, tem mesmo. Este texto mostra os números do maior estudo mundial sobre o peso das doenças e o que eles querem dizer para quem sente dor.
Dois termos para começar
GBD é a sigla em inglês do Global Burden of Disease, um grande estudo mundial que estima o peso das doenças. Ele junta dados de muitos países para calcular quantas pessoas têm cada problema de saúde e quanto isso atrapalha a vida delas.
YLD é a sigla em inglês para anos vividos com incapacidade. Quer dizer o tempo de vida com limitação por um problema de saúde. Não mede mortes. Mede o quanto um problema atrapalha o dia a dia de quem está vivo.
Quantas pessoas têm dor lombar
Segundo a edição de 2021 do GBD, publicada em 2023:
- em 2020, 619 milhões de pessoas no mundo tinham dor lombar;
- a projeção para 2050 é de 843 milhões.
E a dor lombar continua sendo a principal causa de anos vividos com incapacidade no mundo.
Está ficando mais comum?
Aqui é preciso olhar dois números diferentes.
Entre 1990 e 2020, as taxas padronizadas por idade caíram cerca de 10%. Taxa padronizada por idade é um cálculo que compara populações como se elas tivessem a mesma distribuição de idades. Ela serve para ver se o risco de cada pessoa mudou, sem a influência do envelhecimento da população.
Mas o número absoluto de casos continua crescendo. Ou seja: o risco de cada pessoa não aumentou, mas há mais gente no mundo, e mais gente mais velha, então há mais pessoas com dor.
Uma revisão publicada em 2018 mostrou o mesmo padrão. Entre 1990 e 2015, os anos vividos com incapacidade por dor lombar aumentaram 54%, sobretudo pelo crescimento e pelo envelhecimento da população.
E a dor no pescoço?
A dor no pescoço, ou dor cervical, também é muito comum. Segundo o GBD:
- afetava 203 milhões de pessoas em 2020;
- a projeção para 2050 é de 269 milhões, um aumento de 32,5%.
Se a sua queixa é o pescoço, o texto dor no pescoço volta? conta o que se sabe sobre a evolução dela.
Parte disso tem a ver com fatores que podem mudar
O GBD também estima quanto da incapacidade por dor lombar se atribui a fatores que podem ser modificados. Entre eles:
- a ergonomia no trabalho, com 22,0%;
- o tabagismo, com 12,5%.
No modelo do GBD, "ergonomia no trabalho" é um indicador indireto. Ele agrupa levantar peso, fazer movimentos com força, ficar em posturas desconfortáveis e estar exposto a vibração.
Esses números são estimativas de um modelo estatístico para a população inteira. Eles não dizem por que uma pessoa específica tem dor.
O que esses números querem dizer para você
Primeiro: a dor nas costas é comum. Muito comum. Isso não quer dizer que ela não importe. Quer dizer que você não está sozinha, e que ter dor nas costas não é sinal de que você fez algo errado.
Muita gente sente culpa pela dor. "Eu devia ter feito mais exercício." "Eu sento errado." Os números mostram que a dor lombar atinge centenas de milhões de pessoas, com estilos de vida muito diferentes. Ela não é um castigo individual.
Segundo: comum não quer dizer grave. Na dor lombar aguda, a dor média costuma cair bastante nas primeiras 6 semanas, segundo uma revisão de certeza moderada. O texto como a dor lombar aguda costuma evoluir mostra o que acontece nas semanas depois de uma crise.
Terceiro: a dor nas costas atrapalha a vida, e por isso ela merece atenção. É exatamente isso que o YLD mede.
Por que tanta gente?
O livro A coluna sob carga dedica um capítulo a essa pergunta: o que as exposições do século XXI, como sentar muito tempo e usar telas, mudam no funcionamento da coluna. E o texto dor nas costas é doença da vida moderna? compara o que se sabe sobre povos de vida tradicional.
Uma parte da resposta, segundo os próprios dados do GBD, é simples: há mais gente no mundo e mais gente mais velha.
O que você leva deste texto
- Em 2020, 619 milhões de pessoas tinham dor lombar; a projeção para 2050 é de 843 milhões.
- A dor lombar é a principal causa de anos vividos com incapacidade no mundo.
- O risco de cada pessoa caiu um pouco desde 1990, mas o número de casos cresce com o aumento e o envelhecimento da população.
- A dor no pescoço afetava 203 milhões de pessoas em 2020.
- Dor nas costas é comum. Isso tira o peso da culpa, mas não tira a importância.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas têm dor lombar?
Em 2020, 619 milhões de pessoas; a projeção para 2050 é de 843 milhões.
E dor no pescoço?
Afetava 203 milhões de pessoas em 2020, com 269 milhões projetados para 2050.
Fontes
- GBD 2021 Low Back Pain Collaborators. Global, regional, and national burden of low back pain, 1990-2020, its attributable risk factors, and projections to 2050: a systematic analysis of the Global Burden of Disease Study 2021. Lancet Rheumatol. 2023. PMID 37273833; doi:10.1016/S2665-9913(23)00098-X
- Hartvigsen J, Hancock MJ, Kongsted A et al. What low back pain is and why we need to pay attention. Lancet. 2018. PMID 29573870; doi:10.1016/S0140-6736(18)30480-X
- GBD 2021 Neck Pain Collaborators. Global, regional, and national burden of neck pain, 1990-2020, and projections to 2050: a systematic analysis of the Global Burden of Disease Study 2021. Lancet Rheumatol. 2024. PMID 38383088; doi:10.1016/S2665-9913(23)00321-1
- Wallwork SB, Braithwaite FA, O'Keeffe M et al. The clinical course of acute, subacute and persistent low back pain: a systematic review and meta-analysis. CMAJ. 2024. PMID 38253366; doi:10.1503/cmaj.230542
- No livro A coluna sob carga: cap. 6.1, p. 20–21; cap. 7.2.1, p. 24

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F