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Dor nas costas é doença da vida moderna?

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 6 min

É comum culpar a cadeira, o computador e o celular pela dor nas costas. A ideia é sedutora: nossos avós trabalhavam na roça, se mexiam o dia todo e, por isso, não teriam dor. Será?

Este texto mostra o que estudos com povos que vivem sem fábricas e sem escritórios encontraram. E explica o que mudou de verdade na vida de hoje, segundo o livro A coluna sob carga.

O que é uma população não industrializada

Uma população não industrializada é aquela que vive sem fábricas, escritórios e carros. Muitas vivem de caçar, coletar ou plantar.

Esses povos são uma espécie de comparação natural. Se a dor nas costas fosse só um efeito da cadeira e do escritório, ela deveria ser rara entre eles.

Os Tsimane: trabalho físico e dor

Os Tsimane vivem na Bolívia e se sustentam de trabalho físico de subsistência. Subsistência quer dizer produzir o que a família precisa para viver: plantar, caçar, pescar, carregar.

Num estudo publicado em 2023, os próprios Tsimane apontaram esse trabalho físico como a principal causa de dor ao longo da vida. A dor aumentou com a idade, sobretudo nas costas.

Os autores concluíram que a dor lombar crônica não é uma "doença de descompasso" exclusiva de sociedades industrializadas. Doença de descompasso seria uma doença causada pela distância entre o modo de vida moderno e aquele para o qual o corpo teria evoluído.

Pense na avó que trabalhou na roça a vida inteira e também tinha dor nas costas. Ela não ficava oito horas na frente de um computador. Mesmo assim, a dor estava lá.

Um detalhe sobre os músculos das mulheres Tsimane

Um estudo mais recente comparou os músculos das costas de mulheres Tsimane com os de mulheres de um grande estudo americano, o estudo de Framingham. Os extensores lombares, os músculos que estendem a parte baixa das costas, eram 11 a 14% maiores e mais densos nas mulheres Tsimane.

Há uma ressalva importante. Esse estudo é um preprint: um artigo divulgado antes de passar pela revisão de outros cientistas. Por isso, o achado ainda precisa ser confirmado.

Os Hadza: parados, mas de outro jeito

Os Hadza são caçadores-coletores da Tanzânia. Eles passam cerca de 9,9 horas por dia sem se deslocar, um tempo parecido com o de populações industrializadas.

A diferença é que boa parte desse tempo é passada agachado, com mais atividade nos músculos das pernas do que numa cadeira. O texto ficar parada sem usar o músculo conta esse estudo em detalhe.

Ou seja: nem o trabalho físico protege da dor, como mostram os Tsimane, nem o tempo parado é uma novidade, como mostram os Hadza.

Então a cadeira não tem culpa?

O livro A coluna sob carga junta esses estudos numa síntese. Ela tem três partes.

A bipedia impôs custos mecânicos à coluna desde o início. Andar em pé sempre teve um preço para a coluna. O texto sua coluna tem 3 milhões de anos de treino mostra essa história.

O século XXI não criou a dor lombar. Ela já existia antes da cadeira de escritório.

O que o século XXI mudou foi o tipo de carga. O livro cita mais tempo parado com o músculo inativo, mais tempo em cadeira, telas e vida mais longa. Esse novo perfil de carga pode agravar uma fragilidade antiga.

O livro classifica essa leitura como plausível: faz sentido e tem indícios, mas não foi provada. Nenhum estudo demonstrou que esse novo perfil causa a dor.

Por que a dor parece mais comum hoje

Se a dor sempre existiu, por que ela parece estar em toda parte? Uma parte da resposta está nos números mundiais.

Em 2020, 619 milhões de pessoas tinham dor lombar no mundo. Entre 1990 e 2015, os anos vividos com incapacidade por dor lombar aumentaram 54%, sobretudo pelo crescimento e pelo envelhecimento da população.

Em outras palavras: há mais gente no mundo, e as pessoas vivem mais. Isso aumenta o número de casos, mesmo sem que cada pessoa tenha mais risco. O texto dor nas costas é a maior causa de incapacidade no mundo explica esses números.

O que isso muda para você

Saber que a dor nas costas é antiga e comum não diminui a dor de ninguém. Mas muda a forma de olhar para ela.

Primeiro, tira um pouco da culpa. A dor não aparece só porque você "escolheu" uma vida sentada. Povos com vidas muito diferentes da sua também têm dor.

Segundo, evita colocar toda a responsabilidade na cadeira. O livro mostra que a dor nas costas passa por muitos fatores, como o sono, o trabalho, as crenças sobre a dor e a genética.

Terceiro, mostra onde pode estar o espaço para mudar: no tipo de carga do dia. Menos tempo parada com o músculo desligado, mais variação de posição. É uma direção coerente com o que o livro descreve, ainda que não seja uma promessa.

O que você leva deste texto

  • A dor nas costas é antiga e comum: povos que vivem de trabalho físico também têm, e ela aumenta com a idade.
  • O tempo parado não é novo; o que mudou foi o tipo de carga, com mais tempo parado com o músculo inativo.
  • Essa leitura é plausível, não provada.
  • Não faz sentido culpar a cadeira por tudo.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.

Perguntas frequentes

Povos sem cadeira e sem escritório têm dor nas costas?

Sim. Os Tsimane, na Bolívia, vivem de trabalho físico e apontam esse trabalho como a principal causa de dor; a dor nas costas aumenta com a idade.

Então o que mudou hoje?

O livro diz que o século XXI não criou a dor lombar: mudou o tipo de carga (mais tempo parado com músculo inativo, telas, vida mais longa). Essa leitura é plausível, não provada.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F