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Pescoço de celular: o ângulo ou o tempo?

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 7 min

Rolar o feed antes de dormir. Responder mensagens de trabalho no celular, com a cabeça baixa, no sofá ou na fila do mercado. No fim do dia, o pescoço reclama. A culpa é da cabeça inclinada?

Este texto mostra o que os estudos encontraram sobre o celular e a dor no pescoço. A resposta surpreende: o ângulo da cabeça parece importar menos do que o tempo e o jeito de usar o aparelho.

Os termos, em palavras simples

Text neck é o nome popular, em inglês, para a cabeça inclinada sobre o celular. Em português, algo como "pescoço de mensagem de texto".

Cervical é a parte da coluna no pescoço.

Trapézio superior é o músculo entre o pescoço e o ombro.

O que muda no corpo quando você usa o celular

Uma revisão de 2018 reuniu estudos sobre a mecânica do corpo durante o uso do smartphone. Ela encontrou:

  • mais flexão da cabeça, ou seja, a cabeça mais inclinada para a frente e para baixo;
  • mais atividade do trapézio superior;
  • mais atividade dos músculos que estendem o pescoço, os extensores cervicais, que seguram a cabeça por trás.

Mas mudar o funcionamento dos músculos não é o mesmo que causar dor. Para saber se há relação com dor, é preciso olhar outros estudos.

O ângulo da cabeça se associa à dor?

Dois estudos testaram justamente isso.

  • Um estudo de 2021, com adultos, não encontrou associação entre o ângulo do pescoço ao usar o celular e a dor no pescoço.
  • Um estudo de 2018, com jovens adultos de 18 a 21 anos, também não encontrou associação significativa.

Ou seja: nesses estudos, quem inclinava mais a cabeça ao usar o celular não tinha mais dor no pescoço por causa disso.

O livro A coluna sob carga classifica a certeza desse achado como baixa, porque os dois estudos são transversais: olharam as pessoas num momento só.

E o tempo de uso?

Aqui a história muda. Uma revisão com metanálise de 2025 juntou estudos sobre uso excessivo do smartphone, ou seja, o tempo e o padrão de uso. Ela encontrou associação com dor no pescoço: um OR de 2,34.

OR é a sigla em inglês para razão de chances. Ela compara a chance de algo acontecer num grupo com a chance no outro. Um OR de 2,34 quer dizer que quem usava o celular de forma excessiva tinha uma chance mais de duas vezes maior de ter dor no pescoço.

A certeza também é baixa. Os estudos reunidos nessa revisão olharam para trás, para o que já tinha acontecido. Eles mostram que as duas coisas andam juntas, não que uma causa a outra.

O que o livro conclui

Juntando os achados, o livro resume a lição sobre a dor no pescoço assim: o tempo e o padrão de uso importam mais do que o ângulo da cabeça.

E a postura da cabeça em geral?

Fora do uso do celular, há estudos sobre a postura da cabeça em geral. Os resultados mostram diferenças pequenas:

  • numa revisão, o ângulo entre a cabeça e o pescoço diferiu cerca de 3 graus (−2,93°) entre pessoas com e sem dor no pescoço;
  • noutra, a cabeça mais projetada para a frente foi maior em adultos com dor, mas não em adolescentes, e a idade atrapalhou a comparação.

Esses dados também são transversais. O livro lembra que a postura pode ser consequência da dor, e não a causa.

O que fazer com essa informação

Se o ângulo importa menos que o tempo, a pergunta útil muda. Em vez de "estou segurando o celular na altura certa?", vale perguntar "quanto tempo seguido eu passo no celular, e como?".

Alguns exemplos gerais:

  • reparar quanto tempo você passa rolando o feed antes de dormir;
  • juntar as mensagens de trabalho em alguns momentos do dia, em vez de responder uma a uma o tempo todo;
  • fazer pausas e mudar de posição durante o uso longo.

São sugestões gerais, não um tratamento. E não há um tempo "seguro" definido nos estudos.

A mesma ideia vale para o computador. O texto passar o dia sentada no home office dá dor nas costas? mostra o que se sabe sobre o tempo sentado e a dor no pescoço e no ombro.

E as crianças?

Sobre crianças e telas, o livro traz um dado sobre isso: em crianças, cada hora diária de computador se associou a um aumento de 8,2% no risco de dor lombar. O texto crianças, telas e dor nas costas conta mais.

A dor no pescoço costuma voltar?

A dor no pescoço é comum e muitas vezes volta: metade a três quartos das pessoas com dor no pescoço voltam a ter dor em 1 a 5 anos. O texto dor no pescoço volta? mostra o que os estudos sabem sobre isso e quais fatores pesam mais.

O que você leva deste texto

  • Usar o celular inclina a cabeça e faz o trapézio superior e os músculos de trás do pescoço trabalharem mais.
  • O ângulo da cabeça ao usar o celular não se associou à dor no pescoço em dois estudos.
  • O uso excessivo, ou seja, o tempo e o padrão de uso, se associou à dor no pescoço (OR 2,34).
  • A certeza é baixa nos dois casos.
  • Olhar mais para o tempo de uso do que para o ângulo é a lição prática.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.

Perguntas frequentes

Abaixar a cabeça para o celular causa dor?

O ângulo da cabeça ao usar o celular não se associou à dor no pescoço em dois estudos.

O que se associou à dor?

O uso excessivo (tempo e padrão de uso): OR 2,34 numa revisão de estudos. A certeza é baixa.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F