Pescoço de celular: o ângulo ou o tempo?
Rolar o feed antes de dormir. Responder mensagens de trabalho no celular, com a cabeça baixa, no sofá ou na fila do mercado. No fim do dia, o pescoço reclama. A culpa é da cabeça inclinada?
Este texto mostra o que os estudos encontraram sobre o celular e a dor no pescoço. A resposta surpreende: o ângulo da cabeça parece importar menos do que o tempo e o jeito de usar o aparelho.
Os termos, em palavras simples
Text neck é o nome popular, em inglês, para a cabeça inclinada sobre o celular. Em português, algo como "pescoço de mensagem de texto".
Cervical é a parte da coluna no pescoço.
Trapézio superior é o músculo entre o pescoço e o ombro.
O que muda no corpo quando você usa o celular
Uma revisão de 2018 reuniu estudos sobre a mecânica do corpo durante o uso do smartphone. Ela encontrou:
- mais flexão da cabeça, ou seja, a cabeça mais inclinada para a frente e para baixo;
- mais atividade do trapézio superior;
- mais atividade dos músculos que estendem o pescoço, os extensores cervicais, que seguram a cabeça por trás.
Mas mudar o funcionamento dos músculos não é o mesmo que causar dor. Para saber se há relação com dor, é preciso olhar outros estudos.
O ângulo da cabeça se associa à dor?
Dois estudos testaram justamente isso.
- Um estudo de 2021, com adultos, não encontrou associação entre o ângulo do pescoço ao usar o celular e a dor no pescoço.
- Um estudo de 2018, com jovens adultos de 18 a 21 anos, também não encontrou associação significativa.
Ou seja: nesses estudos, quem inclinava mais a cabeça ao usar o celular não tinha mais dor no pescoço por causa disso.
O livro A coluna sob carga classifica a certeza desse achado como baixa, porque os dois estudos são transversais: olharam as pessoas num momento só.
E o tempo de uso?
Aqui a história muda. Uma revisão com metanálise de 2025 juntou estudos sobre uso excessivo do smartphone, ou seja, o tempo e o padrão de uso. Ela encontrou associação com dor no pescoço: um OR de 2,34.
OR é a sigla em inglês para razão de chances. Ela compara a chance de algo acontecer num grupo com a chance no outro. Um OR de 2,34 quer dizer que quem usava o celular de forma excessiva tinha uma chance mais de duas vezes maior de ter dor no pescoço.
A certeza também é baixa. Os estudos reunidos nessa revisão olharam para trás, para o que já tinha acontecido. Eles mostram que as duas coisas andam juntas, não que uma causa a outra.
O que o livro conclui
Juntando os achados, o livro resume a lição sobre a dor no pescoço assim: o tempo e o padrão de uso importam mais do que o ângulo da cabeça.
E a postura da cabeça em geral?
Fora do uso do celular, há estudos sobre a postura da cabeça em geral. Os resultados mostram diferenças pequenas:
- numa revisão, o ângulo entre a cabeça e o pescoço diferiu cerca de 3 graus (−2,93°) entre pessoas com e sem dor no pescoço;
- noutra, a cabeça mais projetada para a frente foi maior em adultos com dor, mas não em adolescentes, e a idade atrapalhou a comparação.
Esses dados também são transversais. O livro lembra que a postura pode ser consequência da dor, e não a causa.
O que fazer com essa informação
Se o ângulo importa menos que o tempo, a pergunta útil muda. Em vez de "estou segurando o celular na altura certa?", vale perguntar "quanto tempo seguido eu passo no celular, e como?".
Alguns exemplos gerais:
- reparar quanto tempo você passa rolando o feed antes de dormir;
- juntar as mensagens de trabalho em alguns momentos do dia, em vez de responder uma a uma o tempo todo;
- fazer pausas e mudar de posição durante o uso longo.
São sugestões gerais, não um tratamento. E não há um tempo "seguro" definido nos estudos.
A mesma ideia vale para o computador. O texto passar o dia sentada no home office dá dor nas costas? mostra o que se sabe sobre o tempo sentado e a dor no pescoço e no ombro.
E as crianças?
Sobre crianças e telas, o livro traz um dado sobre isso: em crianças, cada hora diária de computador se associou a um aumento de 8,2% no risco de dor lombar. O texto crianças, telas e dor nas costas conta mais.
A dor no pescoço costuma voltar?
A dor no pescoço é comum e muitas vezes volta: metade a três quartos das pessoas com dor no pescoço voltam a ter dor em 1 a 5 anos. O texto dor no pescoço volta? mostra o que os estudos sabem sobre isso e quais fatores pesam mais.
O que você leva deste texto
- Usar o celular inclina a cabeça e faz o trapézio superior e os músculos de trás do pescoço trabalharem mais.
- O ângulo da cabeça ao usar o celular não se associou à dor no pescoço em dois estudos.
- O uso excessivo, ou seja, o tempo e o padrão de uso, se associou à dor no pescoço (OR 2,34).
- A certeza é baixa nos dois casos.
- Olhar mais para o tempo de uso do que para o ângulo é a lição prática.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.
Perguntas frequentes
Abaixar a cabeça para o celular causa dor?
O ângulo da cabeça ao usar o celular não se associou à dor no pescoço em dois estudos.
O que se associou à dor?
O uso excessivo (tempo e padrão de uso): OR 2,34 numa revisão de estudos. A certeza é baixa.
Fontes
- Eitivipart AC, Viriyarojanakul S, Redhead L. Musculoskeletal disorder and pain associated with smartphone use: A systematic review of biomechanical evidence. Hong Kong Physiother J. 2018. PMID 30930581; doi:10.1142/S1013702518300010
- Correia IMT, Ferreira AS, Fernandez J et al. Association Between Text Neck and Neck Pain in Adults. Spine. 2021. PMID 33290371; doi:10.1097/BRS.0000000000003854
- Damasceno GM, Ferreira AS, Nogueira LAC et al. Text neck and neck pain in 18-21-year-old young adults. Eur Spine J. 2018. PMID 29306972; doi:10.1007/s00586-017-5444-5
- Chen YJ, Hu CY, Wu WT et al. Association of smartphone overuse and neck pain: a systematic review and meta-analysis. Postgrad Med J. 2025. PMID 39764644; doi:10.1093/postmj/qgae200
- Rani B, Paul A, Chauhan A et al. Is Neck Pain Related to Sagittal Head and Neck Posture?: A Systematic Review and Meta-analysis. Indian J Orthop. 2023. PMID 36825268; doi:10.1007/s43465-023-00820-x
- Mahmoud NF, Hassan KA, Abdelmajeed SF et al. The Relationship Between Forward Head Posture and Neck Pain: a Systematic Review and Meta-Analysis. Curr Rev Musculoskelet Med. 2019. PMID 31773477; doi:10.1007/s12178-019-09594-y
- Yue C, Wenyao G, Xudong Y et al. Dose-response relationship between daily screen time and the risk of low back pain among children and adolescents: a meta-analysis of 57831 participants. Environ Health Prev Med. 2023. PMID 37899211; doi:10.1265/ehpm.23-00177
- Carroll LJ, Hogg-Johnson S, van der Velde G et al. Course and prognostic factors for neck pain in the general population: results of the Bone and Joint Decade 2000-2010 Task Force on Neck Pain and Its Associated Disorders. Spine. 2008. PMID 18204403; doi:10.1097/BRS.0b013e31816445be
- No livro A coluna sob carga: cap. 6.2, p. 21; cap. 7.1, p. 23; cap. 7.2.2, p. 24; Apêndice B, p. 36

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F