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Lembrete para mudar de posição: o que um estudo com trabalhadores de escritório mostrou

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 7 min

Muita gente já ouviu a dica: "levante de vez em quando". Mas será que um simples lembrete para mudar de posição faz diferença para as costas? Um estudo com trabalhadores de escritório testou exatamente isso.

Este texto conta o que o estudo fez, o que ele encontrou e, principalmente, até onde dá para confiar no resultado.

Dois termos para começar

Ensaio randomizado é um estudo em que um sorteio decide quem recebe o quê. O sorteio serve para que os grupos fiquem parecidos no começo. Assim, se houver diferença no fim, é mais provável que ela venha do que foi testado.

HR é um número que compara o risco ao longo do tempo entre dois grupos. A sigla vem do inglês hazard ratio. Um HR de 1 quer dizer risco igual. Abaixo de 1, risco menor no grupo testado. Um HR de 0,19, por exemplo, quer dizer um risco bem menor.

O que o estudo fez

O estudo foi publicado em 2021. Participaram 193 trabalhadores de escritório. Eles não tinham dor recente, mas tinham alto risco de ter dor.

Foi um ensaio randomizado com três grupos. Um deles recebeu avisos para mudar de posição enquanto estava sentado. O sorteio foi feito por grupos de pessoas, e não uma a uma.

Os pesquisadores acompanharam os participantes por 6 meses e contaram quem teve dor lombar nova nesse período.

O que ele encontrou

Os avisos para mudar de posição sentada reduziram o risco de dor lombar nova. O HR ajustado foi de 0,19.

"Ajustado" quer dizer que os pesquisadores levaram em conta outras diferenças entre as pessoas no cálculo. O intervalo de confiança foi de 0,06 a 0,66. Intervalo de confiança é a faixa onde o valor verdadeiro provavelmente está. Ele é largo, o que mostra que o tamanho exato do efeito ainda é incerto. Mas a faixa inteira fica abaixo de 1, ou seja, do lado do risco menor.

Esse resultado é firme?

Não totalmente. O livro A coluna sob carga aponta três limites:

  1. O estudo é pequeno. 193 pessoas é pouco para ter certeza do tamanho do efeito.
  2. O seguimento foi curto. De 6 meses. Não se sabe o que acontece depois.
  3. A adesão não foi medida. Ou seja, o estudo não mediu se as pessoas de fato seguiram os avisos.

Por isso, o livro descreve o resultado assim: variar a posição teve efeito num ensaio pequeno e curto.

O que o estudo não testou

Este ponto é importante. O estudo testou variar a posição. Ele não testou corrigir o alinhamento, ou seja, colocar a coluna numa "postura certa".

O livro chama atenção para isso. Não há ensaio que mostre que corrigir o alinhamento visível previna dor em pessoas sem dor. O ensaio mais próximo testou outra coisa: variar a posição. E foi esse que teve resultado.

Por que mudar de posição faria sentido

O livro reúne algumas razões, vindas de estudos de laboratório:

  • mudar de posição com frequência favorece o fluxo de líquido no disco e a nutrição dele, segundo os autores do estudo de 1999, com cautela;
  • ficar muito tempo na mesma posição muda a rigidez dos tecidos da parte de trás da coluna.

O texto por que as costas ficam 'duras' depois de horas sentada explica esses achados.

Além disso, sentar mais de 5 horas por dia esteve entre os fatores que previram a volta da dor lombar num estudo que acompanhou pessoas ao longo do tempo. É um dado de prognóstico, não de causa.

Como isso pode aparecer no seu dia

Com base no estudo, a ideia geral é experimentar pausas para trocar de posição. Alguns exemplos:

  • um alarme no celular a cada hora, para lembrar de mudar de posição;
  • levantar para encher a garrafa de água;
  • trocar a posição na cadeira, ou ficar um pouco em pé, durante uma ligação.

O intervalo de uma hora é só um exemplo. O estudo não definiu um intervalo ideal que valha para todo mundo. E estas são sugestões gerais, não um tratamento.

O livro resume a ideia, no juízo dos autores, numa formulação simples: variar a postura e manter a carga dentro da capacidade, com a capacidade crescendo aos poucos.

E o que mais tem evidência de prevenção?

Variar a posição não é a única coisa testada. O livro lembra que há ensaios de prevenção com outras intervenções:

  • exercício com educação reduz o risco de um episódio de dor lombar, com certeza moderada;
  • caminhada com educação reduz a volta da dor, num ensaio.

Ou seja, o que tem algum resultado em prevenção é aumentar a capacidade e a atividade, e variar a posição. Corrigir a forma da postura, até agora, não tem esse tipo de demonstração.

Quebrar o tempo sentado

O lembrete faz parte de uma ideia maior: quebrar o tempo sentado ao longo do dia. O texto passar o dia sentada no home office dá dor nas costas? mostra o que as revisões encontraram sobre isso.

E, para quem quer ir além das pausas, o texto caminhar ajuda a dor nas costas a não voltar? conta um ensaio sobre caminhada e recaída.

O que você leva deste texto

  • Em 193 trabalhadores de escritório de alto risco, avisos para mudar de posição sentada reduziram o risco de dor lombar nova.
  • O estudo é pequeno, durou 6 meses e não mediu se as pessoas seguiram os avisos.
  • Ele testou variar a posição, não corrigir a postura.
  • Experimentar pausas para trocar de posição é uma sugestão geral, sem intervalo ideal definido.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.

Perguntas frequentes

Avisos para mudar de posição ajudam?

Em 193 trabalhadores de escritório de alto risco, avisos para mudar de posição sentada reduziram o risco de dor lombar nova (HR ajustado 0,19).

Esse resultado é firme?

Não totalmente. O estudo é pequeno, durou 6 meses e não mediu se as pessoas seguiram os avisos.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F