Por que as costas ficam 'duras' depois de horas sentada
Você termina uma reunião de 2 horas, levanta da cadeira e as costas parecem travadas. Ou passa a tarde curvada na jardinagem e, ao se endireitar, sente a lombar rígida. O que acontece com os tecidos nessas horas?
Este texto mostra o que estudos de laboratório encontraram sobre a coluna mantida muito tempo na mesma posição. Também mostra o que esses estudos ainda não explicam.
Três palavras para começar
Flexão é curvar o tronco para a frente, como ao se debruçar sobre a mesa ou sobre um canteiro.
Ligamento é a "fita" firme que liga um osso a outro. Na coluna, há ligamentos que ligam uma vértebra à outra, inclusive na parte de trás.
Creep é quando o tecido "cede" devagar por ficar muito tempo na mesma posição. A palavra vem do inglês e quer dizer algo como "deslizar devagar".
Os tecidos da coluna são um pouco elásticos
Os ligamentos e as cápsulas das articulações da coluna se comportam como materiais viscoelásticos. Em palavras simples: eles esticam com a carga, mas não de uma vez, e também não voltam de uma vez.
Quando a coluna fica muito tempo curvada, ou se curva muitas vezes seguidas, esses tecidos cedem aos poucos. O livro A coluna sob carga descreve que, nessas situações, eles se deformam lentamente e perdem rigidez.
O que acontece em 20 minutos curvada
Num estudo com pessoas, publicado em 1992, os voluntários ficaram 20 minutos com a coluna lombar totalmente curvada para a frente. Depois, os pesquisadores mediram o quanto eles conseguiam se curvar.
Os resultados:
- a flexão máxima aumentou 5,5 graus, por causa do creep dos tecidos;
- a deformação seguiu um ritmo com constante de tempo de 9,4 minutos (um jeito de medir a velocidade com que o tecido cede);
- cerca de 50% da rigidez voltou em 2 minutos com as costas relaxadas na curva normal;
- mas a recuperação completa demorou mais.
Em outras palavras: depois de muito tempo curvada, a coluna fica mais "solta" naquela direção. Uma parte volta rápido, mas não tudo.
O que acontece em 2 horas sentada
Outro estudo, de 2005, colocou pessoas sentadas por duas horas e mediu a rigidez passiva da coluna em flexão. Rigidez passiva é a resistência dos tecidos quando a coluna é curvada sem que a pessoa use os músculos.
Nos homens, a rigidez em flexão aumentou já na primeira hora. Nas mulheres, a resposta foi variável: em algumas aumentou, em outras não.
Esse detalhe importa. O livro corrigiu uma frase que circulava no material de partida, segundo a qual "ficar sentado 1 hora já aumenta a rigidez espinhal". A frase vale para os homens desse estudo. Para as mulheres, a resposta foi variável.
O livro também retirou outra afirmação comum, a de que "mais de 7 horas por dia sentado reduz a mobilidade torácica". Ela não foi confirmada nas fontes encontradas.
Rigidez maior ou menor? Depende da situação
Pode parecer contraditório. Num estudo, a flexão plena mantida reduziu a rigidez. No outro, ficar sentado aumentou a rigidez nos homens.
Na verdade, são situações diferentes: curvatura total mantida, num caso, e duas horas sentado, no outro. O livro registra os dois achados lado a lado e tira deles uma conclusão comum: em minutos a horas, a postura muda a rigidez dos tecidos da parte de trás da coluna.
O que os estudos em animais mostram
Alguns estudos foram feitos em gatos, porque permitem medir coisas que não se pode medir em pessoas. São modelos animais: ajudam a entender mecanismos, mas não se aplicam direto aos humanos.
- Com flexão repetida da coluna, o creep não se recuperou totalmente depois de 7 horas de repouso. E a atividade reflexa do multífido, um músculo pequeno colado à coluna, mudou.
- Com cargas altas, sobrou 25,5% de creep depois de 7 horas. Junto com isso, aumentaram substâncias ligadas à inflamação nos ligamentos.
O livro lembra que não traz dado humano equivalente para a ativação muscular.
E a sensação de costas duras?
Aqui é preciso honestidade. Os estudos acima mediram a rigidez dos tecidos e o quanto eles cedem. Eles não mediram a sensação de costas "duras" que você sente ao levantar.
O livro classifica assim: o mecanismo do creep está documentado. A ligação desse mecanismo com a dor em humanos é uma hipótese, ou seja, uma ideia proposta que ainda não foi testada direito.
Então, é possível que a sensação ao levantar depois de horas sentada tenha a ver com essas mudanças nos tecidos. Mas os estudos não provam isso.
O que fazer com essa informação
O que os estudos mostram com mais clareza é que o tempo numa posição muda os tecidos, e que eles precisam de tempo para voltar. Por isso, faz sentido não ficar horas na mesma posição.
O livro defende variar a posição ao longo do dia. Um estudo com trabalhadores de escritório testou avisos para mudar de posição e encontrou menos dor lombar nova. O texto lembrete para mudar de posição conta esse estudo e seus limites.
Na prática, isso pode ser tão simples quanto levantar no intervalo entre duas reuniões, ou endireitar o tronco de vez em quando durante a jardinagem. São sugestões gerais, não um tratamento.
Se quiser entender melhor por que o tempo numa posição também pesa, leia postura não é uma foto. E para saber o que acontece com a pressão no disco ao sentar, veja ficar sentada esmaga o disco?.
O que você leva deste texto
- Ficar muito tempo curvada faz os tecidos de trás da coluna cederem devagar (creep).
- Em pessoas, 20 minutos de flexão total aumentaram a flexão máxima em 5,5 graus; metade da rigidez voltou em 2 minutos, mas a volta completa demorou mais.
- Duas horas sentado aumentaram a rigidez em flexão nos homens; nas mulheres, a resposta variou.
- A ligação entre esse mecanismo e a dor ainda é hipótese.
- Mudar de posição faz parte do dia de quem passa horas sentada.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
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Perguntas frequentes
Ficar curvada muito tempo muda os tecidos?
Sim. Em pessoas, 20 minutos de flexão total aumentaram a flexão máxima em 5,5°. Cerca de metade da rigidez voltou em 2 minutos de costas relaxadas, mas a volta completa demorou mais.
Duas horas sentada mudam algo?
Num estudo, duas horas sentado aumentaram a rigidez em flexão nos homens já na primeira hora. Nas mulheres, a resposta variou.
Fontes
- McGill SM, Brown S. Creep response of the lumbar spine to prolonged full flexion. Clin Biomech. 1992. PMID 23915616; doi:10.1016/0268-0033(92)90007-Q
- Beach TA, Parkinson RJ, Stothart JP et al. Effects of prolonged sitting on the passive flexion stiffness of the in vivo lumbar spine. Spine J. 2005. PMID 15749614; doi:10.1016/j.spinee.2004.07.036
- Claude LN, Solomonow M, Zhou BH et al. Neuromuscular dysfunction elicited by cyclic lumbar flexion. Muscle Nerve. 2003. PMID 12635122; doi:10.1002/mus.10318
- King K, Davidson B, Zhou BH et al. High magnitude cyclic load triggers inflammatory response in lumbar ligaments. Clin Biomech. 2009. PMID 19703727; doi:10.1016/j.clinbiomech.2009.07.011
- Waongenngarm P, van der Beek AJ, Akkarakittichoke N et al. Effects of an active break and postural shift intervention on preventing neck and low-back pain among high-risk office workers: a 3-arm cluster-randomized controlled trial. Scand J Work Environ Health. 2021. PMID 33906239; doi:10.5271/sjweh.3949
- No livro A coluna sob carga: cap. 4.3, p. 15; cap. 6.3, p. 21; cap. 8.4, p. 27; Apêndice B, p. 35

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F