Trabalho pesado 'gasta' o disco? O que os gêmeos mostram
"Trabalhei a vida toda carregando peso, por isso estou assim." Muita gente olha o laudo da ressonância e pensa exatamente isso. A ideia é intuitiva: a coluna seria como um pneu, que "gasta" com o uso.
Os estudos com gêmeos permitiram testar essa ideia de um jeito engenhoso. Este texto conta o que eles encontraram.
Dois termos para começar
Degeneração discal, nos laudos, é o nome dado a mudanças do disco vistas na imagem: o disco mais baixo, com menos água ou com abaulamento. Abaulamento é quando a borda do disco se projeta um pouco para fora.
Hereditariedade é o quanto algo vem da família, pelos genes.
Por que estudar gêmeos
Irmãos gêmeos têm genes iguais ou muito parecidos. Se um deles passou a vida em trabalho pesado e o outro num escritório, dá para comparar os dois discos e ver quanto pesa a carga, com a genética "controlada".
Foi isso que fez o Twin Spine Study, um grande projeto de pesquisa com irmãos gêmeos. Os pesquisadores compararam a ressonância da coluna de pares de gêmeos com histórias de trabalho e de lazer diferentes.
O que os gêmeos mostraram
O resumo dos resultados, publicado em 2009, trouxe três conclusões:
- a hereditariedade teve grande influência sobre a degeneração do disco;
- diferenças grandes de carga no trabalho e no lazer entre os irmãos gêmeos tiveram pouco efeito;
- a carga rotineira pode até trazer algum benefício ao disco.
Ou seja: o irmão que carregou peso a vida toda não tinha, por isso, um disco muito diferente do irmão que trabalhou sentado.
E dirigir muito?
Uma preocupação antiga era a vibração de quem dirige por profissão. Num estudo publicado em 2002, também com gêmeos, dirigir profissionalmente não aumentou a degeneração do disco em relação ao irmão gêmeo.
Uma revisão de 2022 foi na mesma linha. Ela encontrou evidência moderada de que não há associação entre a vibração do corpo inteiro e a degeneração do disco vista na imagem.
E o cigarro?
Nos estudos com gêmeos, o tabagismo se associou a um pequeno aumento da degeneração do disco. É um efeito pequeno, mas aparece.
O que o livro conclui
O livro A coluna sob carga resume assim: a carga ocupacional rotineira explica pouco da degeneração estrutural; a genética explica mais. O livro classifica esse achado como documentado, com base nos estudos de gêmeos.
Isso não quer dizer que o trabalho não importe para nada. Quer dizer que a imagem do disco não é um placar do esforço da vida.
Imagem não é o mesmo que dor
Tem outro ponto importante. Os estudos com gêmeos olharam a imagem do disco. A dor é outra coisa.
As alterações do disco na imagem são muito comuns em pessoas sem nenhuma dor. Uma revisão reuniu 3.110 pessoas sem dor nas costas:
- a degeneração do disco aparecia em 37% das pessoas aos 20 anos e em 96% aos 80 anos;
- o abaulamento do disco aparecia em 30% aos 20 anos e em 84% aos 80 anos.
Num estudo mais antigo, com 98 pessoas sem dor, só 36% tinham todos os discos normais na ressonância.
Por isso, dois pesquisadores propuseram separar o envelhecimento do disco da degeneração. Pela definição deles, degeneração é uma resposta anormal das células a uma falha progressiva da estrutura. E só o disco degenerado que também dói deveria ser chamado de "doença discal degenerativa".
O texto seu exame mostra "desgaste": como ler sem medo conta mais sobre como ler esses achados.
E a dor de quem trabalha com peso?
Aqui a história é um pouco diferente. A imagem do disco depende pouco da carga do trabalho. Mas a dor lombar crônica, sim, se associa a algumas exposições do trabalho, como levantar e carregar peso. O livro classifica essa associação com certeza moderada e lembra que a causa não foi demonstrada.
O texto trabalho com peso e dor lombar conta o que se sabe sobre isso.
Então, o "trabalhei a vida toda carregando peso"
Voltando à frase do começo. Com base nos estudos com gêmeos, o mais provável é que o estado do disco na imagem tenha muito mais a ver com a família e com a idade do que com os anos de trabalho pesado.
Isso tira um peso das costas, no sentido figurado. A imagem não é uma conta que a vida cobrou. E a imagem, sozinha, também não diz quanto vai doer.
O texto dor nas costas é doença da vida moderna? mostra como a carga do dia a dia mudou ao longo da história e o que isso pode ter a ver com a dor.
O que você leva deste texto
- Nos estudos com gêmeos, a herança genética pesou muito no estado do disco.
- Grandes diferenças de carga no trabalho e no lazer entre gêmeos tiveram pouco efeito, e a carga rotineira pode até trazer algum benefício.
- Dirigir profissionalmente não aumentou a degeneração em relação ao irmão gêmeo.
- Mudanças do disco na imagem são comuns em pessoas sem dor e aumentam com a idade.
- A imagem do disco não é um placar do esforço da vida.
Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.
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Perguntas frequentes
O tipo de trabalho explica o estado do disco?
No Twin Spine Study, a herança genética pesou muito; grandes diferenças de carga entre irmãos gêmeos tiveram pouco efeito.
Dirigir muito piora o disco?
Dirigir profissionalmente não aumentou a degeneração em relação ao irmão gêmeo.
Fontes
- Battié MC, Videman T, Kaprio J et al. The Twin Spine Study: contributions to a changing view of disc degeneration. Spine J. 2009. PMID 19111259; doi:10.1016/j.spinee.2008.11.011
- Battié MC, Videman T, Gibbons LE et al. Occupational driving and lumbar disc degeneration: a case-control study. Lancet. 2002. PMID 12423982; doi:10.1016/S0140-6736(02)11399-7
- Macedo LG, Noguchi KS, de Oliveira LA et al. The association between whole body vibration exposure and spine degeneration on imaging: A systematic review. J Back Musculoskelet Rehabil. 2022. PMID 34744062; doi:10.3233/BMR-181350
- Brinjikji W, Luetmer PH, Comstock B et al. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol. 2015. PMID 25430861; doi:10.3174/ajnr.A4173
- Jensen MC, Brant-Zawadzki MN, Obuchowski N et al. Magnetic resonance imaging of the lumbar spine in people without back pain. N Engl J Med. 1994. PMID 8208267; doi:10.1056/NEJM199407143310201
- Adams MA, Roughley PJ. What is intervertebral disc degeneration, and what causes it? Spine. 2006. PMID 16915105; doi:10.1097/01.brs.0000231761.73859.2c
- Jahn A, Andersen JH, Christiansen DH et al. Occupational mechanical exposures as risk factor for chronic low-back pain: a systematic review and meta-analysis. Scand J Work Environ Health. 2023. PMID 37581384; doi:10.5271/sjweh.4114
- No livro A coluna sob carga: cap. 2.4, p. 10; cap. 5.2, p. 18; cap. 5.3, p. 19; cap. 6.2, p. 21; cap. 7.1, p. 23; Apêndice B, p. 35

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F