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Trabalho pesado 'gasta' o disco? O que os gêmeos mostram

Por Matheus Camargo, fisioterapeuta · · Leitura de 6 min

"Trabalhei a vida toda carregando peso, por isso estou assim." Muita gente olha o laudo da ressonância e pensa exatamente isso. A ideia é intuitiva: a coluna seria como um pneu, que "gasta" com o uso.

Os estudos com gêmeos permitiram testar essa ideia de um jeito engenhoso. Este texto conta o que eles encontraram.

Dois termos para começar

Degeneração discal, nos laudos, é o nome dado a mudanças do disco vistas na imagem: o disco mais baixo, com menos água ou com abaulamento. Abaulamento é quando a borda do disco se projeta um pouco para fora.

Hereditariedade é o quanto algo vem da família, pelos genes.

Por que estudar gêmeos

Irmãos gêmeos têm genes iguais ou muito parecidos. Se um deles passou a vida em trabalho pesado e o outro num escritório, dá para comparar os dois discos e ver quanto pesa a carga, com a genética "controlada".

Foi isso que fez o Twin Spine Study, um grande projeto de pesquisa com irmãos gêmeos. Os pesquisadores compararam a ressonância da coluna de pares de gêmeos com histórias de trabalho e de lazer diferentes.

O que os gêmeos mostraram

O resumo dos resultados, publicado em 2009, trouxe três conclusões:

  • a hereditariedade teve grande influência sobre a degeneração do disco;
  • diferenças grandes de carga no trabalho e no lazer entre os irmãos gêmeos tiveram pouco efeito;
  • a carga rotineira pode até trazer algum benefício ao disco.

Ou seja: o irmão que carregou peso a vida toda não tinha, por isso, um disco muito diferente do irmão que trabalhou sentado.

E dirigir muito?

Uma preocupação antiga era a vibração de quem dirige por profissão. Num estudo publicado em 2002, também com gêmeos, dirigir profissionalmente não aumentou a degeneração do disco em relação ao irmão gêmeo.

Uma revisão de 2022 foi na mesma linha. Ela encontrou evidência moderada de que não há associação entre a vibração do corpo inteiro e a degeneração do disco vista na imagem.

E o cigarro?

Nos estudos com gêmeos, o tabagismo se associou a um pequeno aumento da degeneração do disco. É um efeito pequeno, mas aparece.

O que o livro conclui

O livro A coluna sob carga resume assim: a carga ocupacional rotineira explica pouco da degeneração estrutural; a genética explica mais. O livro classifica esse achado como documentado, com base nos estudos de gêmeos.

Isso não quer dizer que o trabalho não importe para nada. Quer dizer que a imagem do disco não é um placar do esforço da vida.

Imagem não é o mesmo que dor

Tem outro ponto importante. Os estudos com gêmeos olharam a imagem do disco. A dor é outra coisa.

As alterações do disco na imagem são muito comuns em pessoas sem nenhuma dor. Uma revisão reuniu 3.110 pessoas sem dor nas costas:

  • a degeneração do disco aparecia em 37% das pessoas aos 20 anos e em 96% aos 80 anos;
  • o abaulamento do disco aparecia em 30% aos 20 anos e em 84% aos 80 anos.

Num estudo mais antigo, com 98 pessoas sem dor, só 36% tinham todos os discos normais na ressonância.

Por isso, dois pesquisadores propuseram separar o envelhecimento do disco da degeneração. Pela definição deles, degeneração é uma resposta anormal das células a uma falha progressiva da estrutura. E só o disco degenerado que também dói deveria ser chamado de "doença discal degenerativa".

O texto seu exame mostra "desgaste": como ler sem medo conta mais sobre como ler esses achados.

E a dor de quem trabalha com peso?

Aqui a história é um pouco diferente. A imagem do disco depende pouco da carga do trabalho. Mas a dor lombar crônica, sim, se associa a algumas exposições do trabalho, como levantar e carregar peso. O livro classifica essa associação com certeza moderada e lembra que a causa não foi demonstrada.

O texto trabalho com peso e dor lombar conta o que se sabe sobre isso.

Então, o "trabalhei a vida toda carregando peso"

Voltando à frase do começo. Com base nos estudos com gêmeos, o mais provável é que o estado do disco na imagem tenha muito mais a ver com a família e com a idade do que com os anos de trabalho pesado.

Isso tira um peso das costas, no sentido figurado. A imagem não é uma conta que a vida cobrou. E a imagem, sozinha, também não diz quanto vai doer.

O texto dor nas costas é doença da vida moderna? mostra como a carga do dia a dia mudou ao longo da história e o que isso pode ter a ver com a dor.

O que você leva deste texto

  • Nos estudos com gêmeos, a herança genética pesou muito no estado do disco.
  • Grandes diferenças de carga no trabalho e no lazer entre gêmeos tiveram pouco efeito, e a carga rotineira pode até trazer algum benefício.
  • Dirigir profissionalmente não aumentou a degeneração em relação ao irmão gêmeo.
  • Mudanças do disco na imagem são comuns em pessoas sem dor e aumentam com a idade.
  • A imagem do disco não é um placar do esforço da vida.

Este texto é para informar. Não substitui uma consulta.

Outros textos e informações sobre o atendimento estão na página inicial.

Perguntas frequentes

O tipo de trabalho explica o estado do disco?

No Twin Spine Study, a herança genética pesou muito; grandes diferenças de carga entre irmãos gêmeos tiveram pouco efeito.

Dirigir muito piora o disco?

Dirigir profissionalmente não aumentou a degeneração em relação ao irmão gêmeo.

Fontes

Foto de Matheus Camargo, fisioterapeuta

Matheus Camargo
Fisioterapeuta · CREFITO-5 246787-F